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domingo, 13 de março de 2011

São Tomás de Aquino - Avaliação segundo Bimestre




DEBATE ENTRE GRUPOS
ELABORE RELATÓRIOS SOBRE O TEXTO EM GRUPOS DE 5 PESSOAS - ENTREGUE EM FOLHA DE ALMAÇO AS QUESTÕES ABAIXO (SERÁ FEITO DEBATE ENTRE OS GRUPOS EM SALA DE AULA)



(O presente texto deverá ser lido, levando-se em consideração os termos: filosofia, logos,fé. - Não sera abordado nenhum tema referente às opções religiosas possíveis.



São Tomás de Aquino (2)

Estimados irmãos e irmãs!
Hoje gostaria de continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de valor tão grande que o estudo do seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que fala a respeito da educação cristã. De resto, já em 1880 o Papa Leão XIII, seu grande apreciador e promotor de estudos tomistas, quis declarar São Tomás Padroeiro das Escolas e das Universidades católicas.

O motivo principal deste apreço reside não só no conteúdo do seu ensinamento, mas também no método por ele adoptado, sobretudo a sua nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja encontravam-se confrontados com várias filosofias de tipo platónico, nas quais se apresentava uma visão completa do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. No confronto com estas filosofias, eles mesmos tinham elaborado uma visão completa da realidade, começando a partir da fé e utilizando elementos do platonismo, para responder às interrogações essenciais dos homens. Esta visão, assente na revelação bíblica e elaborada com um platonismo correcto à luz da fé, era por eles denominada a "nossa filosofia". Portanto, a palavra "filosofia" não era expressão de um sistema puramente racional e, como tal, distinto da fé, mas indicava uma visão global da realidade, construída à luz da fé, mas tornada própria e pensada pela razão; uma visão que, sem dúvida, ia além das capacidades próprias da razão mas que, como tal, era também satisfatória para ela. Para São Tomás de Aquino, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (falecido por volta de 322 a.c.) abria uma nova perspectiva. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamento, uma explicação do mundo sem revelação, unicamente pela razão. E esta racionalidade consequente era convincente. Assim, a antiga forma da "nossa filosofia" dos Padres já não funcionava. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, devia ser reconsiderada. Existia uma "filosofia" completa e convincente em si mesma, uma racionalidade precedente à fé, e depois a "teologia", um pensar com a fé e na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou então excluem-se? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade aliás, que a filosofia elaborada sem o conhecimento de Cristo praticamente esperava a luz de Jesus para ser completa. Esta foi a grande "surpresa" de São Tomás, que determinou o seu caminho de pensador. Mostrar esta independência de filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, a sua relacionalidade recíproca, foi a missão histórica do grande mestre. E assim compreende-se porque no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre razão moderna e fé, o Papa Leão XIII indicou São Tomás como guia no diálogo entre uma e outra. No seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza esta relacionalidade. A fé consolida, integra e ilumina o património de verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás concede a estes dois instrumentos do conhecimento – a fé e a razão – pode ser reconduzida à convicção de que ambas derivam da única nascente de toda a verdade, o Logos divino que age tanto no âmbito da criação, como no contexto da redenção.

Além do acordo entre razão e fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que elas se valem de procedimentos cognoscitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade em virtude da sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, ao contrário, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. São Tomás escreve no início da sua Summa Theologiae: "É dúplice a ordem das ciências; algumas procedem de princípios conhecidos mediante a luz natural da razão, como a matemática, a geometria e semelhantes; outras procedem de princípios conhecidos através de uma ciência superior: como a perspectiva procede de princípios conhecidos mediante a geometria, e a música de princípios conhecidos através da matemática. E deste modo, a doutrina sagrada (ou seja, a teologia) é ciência porque procede dos princípios conhecidos através da luz de uma ciência superior, isto é, a ciência de Deus e dos Santos" (I, q. 1, a. 2).

Esta distinção assegura a autonomia, tanto das ciências humanas como das ciências teológicas. Porém, ela não equivale à separação, mas implica sobretudo uma colaboração recíproca e vantajosa. Com efeito, a fé protege a razão de toda a tentação de desconfiança nas próprias capacidades, estimula-a a abrir-se a horizontes mais vastos, mantém viva nela a busca dos fundamentos e, quando a própria razão se aplica à esfera sobrenatural da relação entre Deus e homem, enriquece o seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode chegar indubitavelmente à afirmação da existência de um único Deus, mas só a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de haurir do mistério do Amor de Deus Uno e Trino.

Por outro lado, não é apenas a fé que ajuda a razão. Também a razão, com os seus meios, pode fazer algo de importante para a fé, prestando-lhe um tríplice serviço, que São Tomás resume no proémio do seu comentário ao De Trinitate, de Boécio: "Demonstrar os fundamentos da fé; explicar mediante semelhanças as verdades da fé; rejeitar as objecções que se levantam contra a fé" (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste compromisso da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, a sua articulação e harmonia interna, o seu bom senso e a sua capacidade de promover o bem do homem. A exactidão dos raciocínios teológicos e o seu significado cognoscitivo real fundamentam-se no valor da linguagem teológica que, segundo São Tomás, é principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador e o ser das suas criaturas é infinita; a dessemelhança é sempre maior do que a semelhança (cf. DS 806). Não obstante, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser criado e o ser do Criador, que nos permite falar sobre Deus com palavras humanas.

São Tomás fundou a doutrina da analogia sobre argumentações puramente filosóficas, e também sobre o facto de que, com a Revelação, foi o próprio Deus quem nos falou e, portanto, nos autorizou a falar dele. Considero importante evocar esta doutrina. Com efeito, ela ajuda-nos a superar algumas objecções do ateísmo contemporâneo, o qual nega que a linguagem religiosa possui um significado objectivo, e afirma ao contrário que só tem um valor subjectivo, ou simplesmente emotivo. Esta objecção deriva do facto que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentáveis da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, estamos persuadidos de que, na realidade, o homem não conhece apenas as funções, objecto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser por exemplo, conhece a pessoa, o Tu do outro, e não apenas o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz deste ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, por mais limitada que seja, a linguagem religiosa é dotada de sentido – porque nos referimos ao ser – como uma seta que se dirige rumo à realidade que ela significa. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã entrevê-se num outro princípio basilar do pensamento do Aquinate: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Com efeito, esta última, mesmo depois do pecado, não é completamente corrupta, mas ferida e debilitada. A Graça, concedida por Deus e comunicada através do Mistério do Verbo encarnado, é uma dádiva absolutamente gratuita com que a natureza é curada, fortalecida e ajudada a perseguir o desejo inato no coração de cada homem e de cada mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela Graça divina.

Reconhece-se uma aplicação importante desta relação entre a natureza e a Graça na teologia moral de São Tomás de Aquino, que é de grande actualidade. No centro do seu ensinamento neste campo, ele insere a lei nova, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste sobre o facto de que esta lei é a Graça do Espírito Santo, concedida a todos aqueles que acreditam em Cristo. A tal Graça une-se o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitido pela Igreja. Sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da acção do Espírito Santo, da Graça, da qual brotam as virtudes teologais e morais, São Tomás faz compreender que cada cristão pode alcançar as elevadas perspectivas do "Sermão da Montanha", se viver uma autêntica relação de fé em Cristo, se se abrir à acção do seu Espírito Santo. Porém – acrescenta o Aquinate – "embora a Graça seja mais eficaz do que a natureza, todavia a natureza é mais essencial para o homem" (Summa Theologiae, I-II, q. 94, a. 6, ad 2), pelo que, na perspectiva moral cristã existe um espaço para a razão, que é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la, considerando o que é bom fazer e o que é bom evitar, para a consecução daquela felicidade que está a peito de cada um, e que impõe uma responsabilidade para com os demais e, portanto, a busca do bem comum. Em síntese, as virtudes do homem, teologais e morais, estão arraigadas na natureza humana. A Graça divina acompanha, sustém e incentiva o compromisso ético mas, por si só, segundo São Tomás, todos os homens, crentes e não-crentes, são chamados a reconhecer as exigências da natureza humana e a inspirar-se nela na formulação das leis positivas, ou seja, daquelas que são emanadas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e a responsabilidade que ela implica são negadas, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande actualidade: "Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover" (n. 71).

Concluindo, São Tomás propõe-nos um conceito amplo e confiante da razão humana: amplo, porque não está limitado aos espaços da chamada razão empírito-científica, mas aberto a todo o ser e por conseguinte também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiante, porque a razão humana, sobretudo se acolhe as aspirações da fé cristã, é promotora de uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade dos seus direitos e a improrrogabilidade dos seus deveres. Não surpreende que a doutrina acerca da dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que recolheram a herança de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito extremamente elevado da criatura humana. Definiu-a, com a sua linguagem rigorosamente filosófica, como "aquilo que de mais perfeito se encontra em toda a natureza, ou seja, um sujeito subsistente numa natureza racional" (Summa Theologiae, I a, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino brota – nunca o esqueçamos – da sua fé viva e da sua piedade fervorosa, que expressava em orações inspiradas, como esta em que pede a Deus: "Concedei-me, suplico-vos, uma vontade que vos procure, uma sabedoria que vos encontre, uma vida que vos agrade, uma perseverança que vos espere confiadamente e uma confiança que no final chegue a possuir-vos"....

Caravagio - São Tomé


São Tomás de Aquino (3)

"...desejo hoje completar, com uma terceira parte, as minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Mesmo após mais de setecentos anos de sua morte, podemos aprender muito com ele. O recordava também o meu predecessor, o Papa Paulo VI, que, em uma homilia em Fossanova, aos 14 de setembro de 1974, por ocasião do sétimo centenário da morte de São Tomás, se perguntava: "Mestre Tomás, que lições pode nos dar?". E respondia assim: "a confiança na verdade do pensamento religioso católico, do qual ele foi defensor, expositor, aberto à capacidade cognitiva da mente humana" (Insegnamenti di Paolo VI, XII[1974], pp. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a São Tomás, afirmava: "todos, enquanto filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos!" (Ibid., p. 836).

Coloquemo-nos, então, também nós na escola de São Tomás e de sua obra principal, a Summa Theologiae [Suma Teológica]. Ela permaneceu inacabada, e todavia é uma obra monumental: contém 512 questões e 2.669 artigos. Trata-se de um argumento forte, em que a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, entrelaçando perguntas e respostas, nas quais São Tomás nos aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com as verdadeiras questões de seu tempo, que são também, muitas vezes, as nossas questões, São Tomás, utilizando o método e o pensamento dos filósofos antigos, especialmente Aristóteles, chega assim a formulações precisas, lúcidas e pertinentes da verdade de fé, onde a verdade é dom da fé, resplandece e torna-se acessível para nós, para nossa reflexão. Tal esforço, no entanto, da mente humana - recorda o Aquinense com a sua própria vida -, é sempre iluminado pela oração, pela luz que vem do Alto. Somente quem vive com Deus e com os mistérios pode também entender o que eles dizem.

Na Suma de Teologia, São Tomás parte do fato de que existem três maneiras diferentes do ser e da essência de Deus: Deus existe em si mesmo, é o princípio e o fim de todas as coisas, e, por isso, todas as criaturas procedem e dependem d'Ele; depois, Deus está presente através da sua Graça na vida e atividade dos cristãos, dos santos; e, finalmente, Deus está presente de um modo todo especial na Pessoa de Cristo unido aqui realmente com o homem Jesus, e operante nos Sacramentos, que emanam de sua obra redentora. Por isso, a estrutura dessa obra monumental (cf. Jean-Pierre Torrell, La "Summa" di San Tommaso, Milano 2003, pp. 29-75), uma pesquisa com "olhar teológico" da plenitude de Deus (cf. Summa Theologiae, Ia, q. 1, a. 7), é articulada em três partes, e é ilustrada pelo próprio Doctor Communis - São Tomás - com estas palavras: "O principal objetivo da sagrada doutrina é o de dar a conhecer a Deus, e não sobretudo em si mesmo, mas também enquanto princípio e fim das coisas e, especialmente, da criatura racional. No intento de expor esta doutrina, trataremos primeiro de Deus; em segundo lugar, do movimento da criatura rumo a Deus; e, por terceiro, de Cristo, o qual, enquanto homem, é, para nós, via para ascender a Deus" (Ibid., I, q. 2). É um círculo: Deus em si mesmo, que sai de si mesmo e nos toma pela mão, de tal modo que, com Cristo, retornemos a Deus, estejamos unidos a Deus, e Deus será tudo em todos.

A primeira parte da Summa Theologiae investiga, por conseguinte, sobre Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e sobre a atividade criadora de Deus. Nesta parte, encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto nascido das mãos criadoras de Deus, fruto do seu amor. Por um lado, somos um ser criado, dependente, não viemos de nós mesmos; mas, por outro lado, temos uma verdadeira autonomia, de modo que somos não qualquer coisa de aparente - como dizem alguns filósofos platônicos -, mas uma realidade querida por Deus como tal, e com valor em si mesma.

Na segunda parte, São Tomás considera o homem, impelido pela Graça, na sua aspiração de conhecer e amar a Deus para ser feliz no tempo e na eternidade. Primeiro, o Autor apresenta os princípios teológicos do agir moral, estudando como, na liberdade de escolha humana para praticar o bem, integram-se a razão, a vontade e as paixões, às quais se acrescenta a força que dá a Graça de Deus através das virtudes e dos dons do Espírito Santo, bem como a ajuda que é oferecida também pela lei moral. Então, o ser humano é um ser dinâmico que procura a si mesmo, busca tornar-se a si mesmo e busca, neste sentido, praticar atos que o constróem, o fazem verdadeiramente homem; e aqui entra a lei moral, entra a Graça e a própria razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, São Tomás delineia a fisionomia do homem que vive segundo o Espírito e que se torna, assim, um ícone de Deus. Aqui, o Aquinense dedica-se a estudar as três virtudes teologais - fé, esperança e caridade -, seguidas do agudo exame de mais de cinquenta virtudes morais, organizadas em torno das quatro virtudes cardeais - prudência, justiça, temperança e fortaleza. Termina, então, com a reflexão sobre as diferentes vocações na Igreja.

Na terceira parte da Summa, São Tomás estuda o Mistério de Cristo - o caminho e a verdade - por meio do qual podemos alcançar novamente a Deus Pai. Nesta seção, escreve páginas praticamente insuperáveis sobre o Mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando, em seguida, uma ampla discussão sobre os sete sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado estende os benefícios da Encarnação para a nossa salvação, para o nosso caminho de fé em direção a Deus e à vida eterna, permanece materialmente quase presente com as realidades da criação, nos toca, assim, no íntimo.

Falando dos Sacramentos, São Tomás detém-se especialmente sobre o Mistério da Eucaristia, pelo qual tinha uma grandíssima devoção, a tal ponto que, de acordo com os antigos biógrafos, era seu costume encostar a cabeça no Tabernáculo, como que para sentir palpitar o Coração divino e humano de Jesus. Em uma obra de comentário à Escritura, São Tomás nos ajuda a compreender a excelência do Sacramento da Eucaristia, quando escreve: "Sendo a Eucaristia o sacramento da Paixão de Nosso Senhor, contém em si Jesus Cristo que sofreu por nós. Portanto, tudo que é efeito da Paixão de nosso Senhor, é também efeito desse sacramento, não sendo esse outra coisa que não a aplicação em nós da Paixão do Senhor" (In Ioannem, c.6, lect. 6, n. 963). Compreendamos bem por que São Tomás e outros santos haviam celebrado a Santa Missa derramando lágrimas de compaixão pelo Senhor, que se oferece em sacrifício por nós, lágrimas de alegria e de gratidão.

Queridos irmãos e irmãs, na escola dos Santos, enamoremo-nos por este sacramento! Participemos da Santa Missa com recolhimento, para obter os frutos espirituais, nutramo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para sermos incessantemente alimentados pela Graça divina! Entretenhamo-nos de bom grado e frequentemente, cara a cara, na companhia do Santíssimo Sacramento!

Tudo quanto São Tomás ilustrou com rigor científico nas suas obras teológicas maiores, como considero a Summa Theologiae, também a Summa contra Gentiles foi exposta na sua pregação, dirigida aos alunos e aos fiéis. Em 1273, um ano antes de sua morte, durante toda a Quaresma, ele pregou sermões na igreja de São Domingos Maior, em Nápoles. O conteúdo daqueles sermões foi recolhido e conservado: são os Opúsculos em que ele explica o Símbolo dos Apóstolos [Credo], interpreta a oração do Pai Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave Maria. O conteúdo das pregações do Doctor Angelicus corresponde quase inteiramente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica. De fato, na catequese e na pregação, em um tempo como o nosso, de renovado compromisso com a evangelização, nunca deveriam faltar esses temas fundamentais: o que nós cremos, e eis o Símbolo da fé; o que nós rezamos, e eis o Pai Nosso e a Ave Maria; e o que nós vivemos como nos ensina a Revelação bíblica, e eis a lei do amor a Deus e ao próximo e os Dez Mandamentos, como explicação desse mandamento do amor.

Desejo propor alguns exemplos do conteúdo, simples, essencial e convincente, do ensinamento de São Tomás. No seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dessa, diz, a alma une-se a Deus, e se produz como que uma semente da vida eterna. A vida recebe uma orientação segura, e nós superamos facilmente as tentações. Àqueles que objetam que a fé seja uma loucura, porque faz crer em algo que não se inscreve no âmbito da experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito abrangente, e recorda que essa é uma objeção inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer a tudo. Somente no caso em que nós pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica loucura aceitar a verdade pela pura fé. Além disso, é impossível viver, diz São Tomás, sem confiarmos na experiência de outros, onde o conhecimento pessoal não chega. É razoável, portanto, prestar fé em Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos: eram poucos, simples e pobres, esgotados por causa da Crucificação de seu Mestre; no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram em pouco tempo escutando sua pregação. Trata-se, com efeito, de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual dificilmente pode-se dar outra resposta razoável, exceto aquela do encontro dos Apóstolos com o Senhor Ressuscitado.

Comentando o artigo do Símbolo sobre a Encarnação do Verbo Divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, considerando o mistério da Encarnação, é reforçada; a esperança eleva-se mais confiante, a partir do pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens a própria divindade; o amor é reavivado, pois não há sinal mais evidente do amor de Deus por nós que ver o Criador do universo tornar-se Ele próprio criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar o nosso desejo de contemplarmos Cristo na glória. Usando uma comparação simples e eficaz, São Tomás observa: "Se o irmão de um rei estivesse distante, certamente desejaria poder viver ao seu lado. Cristo nos é este irmão: devemos, portanto, desejar a sua companhia, tornarmo-nos um só coração com ele" (Opuscoli teologico-spirituali, Roma 1976, p. 64).

Apresentando a oração do Pai Nosso, São Tomás mostra que ela é perfeita em si mesma, tendo todas as cinco características que uma oração bem feita deveria possuir: confiante e tranquilo abandono; conveniência de seu conteúdo, porque - observa São Tomás - "é muito difícil saber exatamente o que é oportuno pedir e o que não é, dado que estamos em dificuldade frente à seleção dos desejos" (Ibid., p. 120); e, então, ordens apropriadas dos pedidos, fervor da caridade e sinceridade da humildade.

São Tomás foi, como todos os santos, um grande devoto de Nossa Senhora. A definia com um nome bonito: Triclinium totius Trinitati - triclínio, isto é, lugar onde a Trindade encontra o seu repouso, porque, devido à Encarnação, em nenhuma criatura, como n'Ela, as três divinas Pessoas habitaram e provaram a delícia e a alegria de viver na sua alma cheia de Graça. Pela sua intercessão, podemos obter todo o auxílio.

Com uma oração, que é tradicionalmente atribuída a São Tomás e que, em todo o caso, reflete os elementos de sua profunda devoção mariana, também nós dizemos: "Ó beatíssima e dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus [...], eu confio ao teu coração misericordioso toda a minha vida [...] Obtém-me, ó minha dulcíssima Senhora, amor verdadeiro, com o qual possa amar com todo o coração o teu santíssimo Filho e a ti, depois d'Ele, sobre todas as coisas, e o próximo em Deus e por Deus".



Benedictus PP. XVI;© Copyright 2010 - Libreria Editrice Vaticana

Fonte: Vatican.va


1 - A ilustração acima do pintor Caravaggio, sugere que tipo de relação entre o homem e o λόγος?
2 - Qual é a concepção de filosofia contida no texto?
3 - O que o texto diz sobre os valores morais? Explique.
4 - Explique as idéias contidas nas : primeira parte, segunda e terceira partes da Summa Theologiae.
5- Quais as idéias centrais do texto?

Reflexão:
E quando chegar a hora,
A hora suprema do encontro
Que me perguntarás, oh meu Deus?
Pouco importa o que dirás.
Silencioso.
Apenas mostrarei as mãos deformadas pelo trabalho.
E abrirei o coração cheio dos nomes que amei.
Nesse momento, me sinto como o salmista,
que pensando em si e para si mesmo ,
sentenciava:
“Considerando os dias passados, tenho os olhos voltados para a eternidade”.

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