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sábado, 16 de abril de 2011

O poder da Arte: uma breve reflexão







O poder da Arte: uma breve reflexão


Cláudio Antônio Arantes Pompeu
E.E. Mário Marques de Oliveira
claudio.pompeu@professor.sp.gov.br
Orientador: João Antonio de Moraes

Resumo: Desde os primórdios o homem demonstra sua necessidade de se expressar e para isso molda no mundo uma nova criação. Como um demiurgo, o homem visita o mundo dos possíveis e dele trás novas formas e conceitos que transcendem a natureza, transfigurando o mundo em tudo o que faz. Uma das mais elevadas manifestações humanas é a Arte que, por sua natureza alcança o infinito, e enquanto existe não deixa de impressionar. A Arte passa então a estar sob outra emanação humana: o Poder. É diante deste contexto que se situa nosso objetivo central, qual seja: estabelecer uma relação possibilite desvendar em que consiste o Poder da Arte. Para tanto, num primeiro momento, vamos procurar uma essência da arte. Em seguida, propomos uma reflexão sobre o Poder e, por fim, analisamos em que consiste o poder da arte.

Palavras-chave: Arte. Poder. Absoluto. Kratos. Potestas

Abstract: Since the beginning men demonstrate needs to express themselves and to do so shapes the world as a new creation. As a demiurge, the man visits the world of possible and from it brings new forms and concepts the go beyond nature, transforming the world in everything he does. One of the highest manifestations of human is Art that is by its nature reaches infinity, and while exists it is impressive. The Art is then under another human emanation: the Power. It is in this context that is our main objective: to establish a relationship enables unravel what constitutes the Power of Art. Therefore, at first, we will seek an essence of art. Then we propose a reflection on power and, finally, analyze what constitutes the power of art.

Keywords: Art. Power. Absolut. Kratos. Potestas


*          *          *

“A sensibilidade espiritual do homem que abriu sua alma para a palavra de Yahweh, a confiança e a fortaleza necessárias para fazer desta palavra a ordem da existência em oposição ao mundo e a imaginação criativa usada para a transformação do símbolo de servidão civilizacional no símbolo de libertação divina – essa combinação é um dos grandes e raros eventos na história da humanidade. Esse evento leva o nome de Abrão”. (Eric Voegelin)

1. Introdução



            A Modernidade, fenômeno civilizacional criado pela proteção de fazer a razão reinar na sociedade, tem desfigurado a natureza humana e seus produtos (GOYA, 2012). O desejo de controle da natureza e, depois da promessa de libertação, passou rapidamente para o desejo de controle dos nossos semelhantes, por regimes totalitários e fez com que tudo o que é humano se voltasse contra a humanidade, disfarçado de humanismo, como foi claramente marcado na História, monumento horrivelmente espetacular dos mais 100.000.000 de mortos dos regimes Socialistas e Nazista. Desde a proposta do “Venerabilis inceptor”, Willian de Ockham a Luiz da Baviera foi explicitada: “Tu me defendas gladio; ego te defendam calmo”, cada vez mais as altas expressões humanas têm percorrido caminhos nos quais se prostituíram, usurparam ou foram manipuladas por Poderes e poderosos, fazendo mais o papel de cortesãs do que o de soberanas. Então veio à tona uma nova discussão sobre o conceito e realidade do “Poder”, como luta de classes em Marx ou como relações em Foucault que aos poucos começa a ser redefinido, se tornando a ótica pela qual as coisas são vistas e entendidas. Filosofia, Arte, Religião, produto e produção, vão se distanciando de seus fins e passam e se tornar peças no jogo de poder, se degenerando em pesadelo no sonho da Razão.
            Resgatar a “essência” do humano “demasiado humano” é uma tarefa para as novas gerações, na superação da modernidade que, na visão de Mário Ferreira dos Santos (1962, p. 13-20) deverá reconstruir a ordem no “terreno líquido” irrigado pela modernidade. Referimo-nos aqui à concepção de Zygmunt Bauman, que entende que vivemos numa sociedade “líquida” na qual nada é feito para ser “sólido”, para durar (BAUMAN, 2003). Talvez na História esse fenômeno não seja mais do que um momento que dará lugar a uma nova sociedade com novos cânones.
            Diante do contexto, nossa proposta neste trabalho é a de comentar as relações entre a Arte e Poder visando à compreensão do estado atual da arte na contemporaneidade.

2. Arte: conceito e função


A teoria da arte, em uma de suas concepções mais tradicionais, consiste essencialmente no “fazer” e teria por função determinar as condições pelas quais a obra de arte deveria ser produzida pelo artífice. Em um sentido mais estrito, a teoria da arte constituiria uma virtude prática que tende a tornar “fácil” e “satisfatório” o trabalho do artista, visando à produção do belo. A palavra téchne, correspondente grego de arns, traduz melhor esta concepção.
O termo téchne era usado para descrever a habilidade no fazer; mais especialmente, uma espécie de competência profissional oposta à capacidade instintiva. Platão (381a-b, p. 94-5, 1993), em sua obra “República”, não se preocupa em dar uma definição exata desta palavra cuja acepção comum significa habilidade, ou ofício. Este termo pode denotar o que foi também colocado por Aristóteles (1140 a, p 343-4, 1973) enquanto um termo atrelado à produção, poiétike. A arte seria uma imitação da natureza e somente um objeto passível de reprodução poderia constituir um objeto da arte. De acordo com tal concepção, a finalidade da arte consistiria na hábil imitação e reprodução dos objetos tal como existem na natureza.
            A partir das concepções de Platão e Aristóteles fica difícil distinguir Arte de ofício ou técnica artesanal. Mesmo a partir da relação entre arte liberal e servil a dificuldade da distinção permanece. Segundo Aquino (I - II, q. 57, a 3, ad. 3, v. IV, 2005, p. 121):

se a arte nada mais é que razão reta de fazer algumas obras, todos os hábitos especulativos dirigidos a essas ações da razão se chamam, por certa semelhança, artes liberais, à diferença das que são voltadas para as obras executadas pelo corpo, que são, até certo ponto, servis [...].

Ou seja, as artes liberais se referem ao trabalho da razão e as servis aos trabalhos exercidos com o corpo. Neste contexto, artifex é o homem que encarna uma ideia, que fabrica um ser que a natureza não fornece, um artificium, como diziam os escolásticos. Reproduzir é refazer com os meios que o homem dispõe aquilo que existe no mundo natural. Neste contexto, a reprodução seria, assim, sempre inferior ao modelo e a arte só poderia reproduzir a aparência de realidade, reduzindo arte a um artifício sem outro valor que não o da técnica. Haveria, como ocorre, arte em outras atividades humanas, mas fica prejudicada a especificação da arte propriamente dita.
            Dizer que a arte consiste em um fazer com a adequação a uma regra e um modelo externo de beleza é estabelecer uma contração entre sua própria definição e a concepção de obra de arte. Isto porque, o que se exalta na arte é menos evidente que as características de seu aspecto executivo e manual, ficando prejudicada a definição de arte e sua distinção das demais atividades (PAREYSON, 1989, p. 29). Além disso, a beleza que o artista concebe e exprime por meio de sinais e imagens sensíveis não se reduz a um simples realismo, rejeitando todo ideal e reduzindo à imitação servil e exclusiva da natureza – beleza natural. Se fizermos uma relação entre mímesis (Aristóteles) e Artes liberais (Tomás de Aquino), deduzimos que o problema desse entendimento está em que a beleza natural não dependeria apenas da integridade e da proporção dos elementos materiais, mas principalmente da forma que se revela pela sua claridade e resplandece no todo (NUNES, 2008, p. 42). Em sendo a forma o ideal, não podem os artistas prescindir do ideal. Assim, para ser coerente dever-se-ia representar as coisas não como a natureza as faz, mas como deveria fazê-las, pois a arte, neste viés, seria uma interpretação e transfiguração da natureza, o que daria grande hegemonia para artes mecânicas em detrimento das artes liberais.
Não buscamos aqui esmiuçar um estudo sobre o conceito de belo e de arte no pensamento clássico e escolástico, mas visamos apenas esboçar a insuficiência da concepção de arte enquanto “fazer” e indicar a concepção de arte enquanto “expressão”.
            A concepção de arte enquanto expressão não exclui por determinação a primeira, mas a completa, pois nela concebe-se a pluralidade das formas de expressão do Espírito. Estas são atos do Espírito que tem consciência da realidade. O termo Espírito é aqui entendido segundo a concepção hegeliana. Ele está presente em sua filosofia da história, na qual o Espírito humano está em um permanente processo dialético de sucessivas teses, antíteses e sínteses, na qual a ideia se realiza. Segundo Abbagnano, Hegel distingue entre Espírito objetivo e absoluto. O segundo pode ser atrelado à noção cartesiana de alma, a qual se refere apenas ao intelecto e razão, enquanto que o Espírito objetivo nos oferece algo mais amplo, pois participa da história e assim deixa de ser de ser um fenômeno próprio da humanidade enquanto abstração. Este passa a fazer parte do processo dialético, no qual o racional real e o real racional, encerrando o Espírito absoluto na Consciência, que, por sua vez, ao ser identificado com o mundo permite dar a História um sentido novo. Em outras palavras, como destaca Abbagnano (1991, p. 336-337), na cosmovisão de Hegel, o protagonista dos acontecimentos é a História como um permanente vir a ser, que arrasta consigo o homem e coloca o absoluto no processo de consciência humana. 
            Se aceitarmos a proposta de Hegel para a concepção de Espírito, poderíamos dizer que a arte é expressão, pois as operações humanas são, essencialmente, expressivas. As operações humanas parecem conter uma essência e personalidade de quem toma a iniciativa de fazê-la, muito embora isso não queira dizer que toda a expressão seja arte. Como indicado, o conceito de arte não se reduz à deliberada transferência de uma ideia para o campo da criação artística, posto que não se reduz a mera técnica. Há, no que chamamos aqui por arte, algo de essencial que permite diferenciá-la das demais atividades humanas, pois não se reduz a elementos pitorescos, tangíveis e empíricos, por outro lado, não é mera idealização, só criação, é a percepção de uma certa realidade que está enraizada no fluxo dos eventos que marcam toda ordem política, como participação dessa ordem universal do ser. Tal fenômeno acontece, pois:

[...] os seres humanos nunca compreendem totalmente o drama da existência nem seu próprio papel dentro dele. Quando chegam a aprender o (algo desse) significado, eles criam símbolos para tornar inteligível a ordem necessariamente incognoscível do ser mediante o uso de analogia com o que já é conhecido (HOGAN, 2009, p. 9-11).

Por essa razão, ocorre de uma sociedade ficar inteiramente expressa em algumas obras legadas às gerações futuras, tudo aquilo que trazia em si vigor criador, de profunda consciência, na qual a experiências de ordem se mostram superadas e a criação de novas perspectivas surge aliada a novas possibilidades técnicas e aos talentos produzidos no âmbito social.
Tais fatores não surgem e não atingem o seu desenvolvimento senão quando a sociedade é fecunda e harmoniosa, e quando existe na sua massa esse intento de criação, esse fervor espiritual que, elevando o homem mortal acima de si mesmo, o leva a eternizar-se. Tais obras não nascem ao acaso, mas são devidas a obscuras paciências e grandes esperanças, em um favorável momento no tempo e, por isso, marcam o ponto culminante da curva que descrevem as sociedades humanas. Sob esse aspecto, a respeito da poesia Homérica, diz Nietzsche (2006, p. 193): “o nome de Homero não teve desde o princípio uma relação necessária nem com o conceito de perfeição estética nem com a “Ilíada” ou “Odisséia”. Homero como poeta da “Ilíada” ou “Odisséia”, não é uma tradição histórica, mas um juízo estético”. Homero é, então, a tradição coligida é a tradição transmitida, Homero caracterizou uma sociedade, descreveu-a, ficou sendo fiel transunto do seu estado intelectual e moral, e o mundo tradicional não tem outra realidade senão a crença do povo que a aceitou como história.
            Como ressalta Brás (1990, p. 58), a obra de arte que se expressa, que tem significado, não teria lugar, se toda produção do Espírito não tivesse já um caráter artístico. Portanto, para ser arte não é o bastante a expressão. Há diversas expressões do Espírito, expressões estas que são atos do Espírito que tem consciência da realidade. Por operar de forma dialética, é na história que esse Espírito toma consciência de Si, e por isso, a arte não pode ser concebida como um fim que tenha valor em si e para si, e ser pensada independente do Espírito de quem extrai seu conteúdo, uma vez que o conceito de sua expressão é o que dá unidade ao seu desdobramento sensível na realidade. O Espírito, ao transformar a matéria, ao se expressar, ao expressar a essência de sua concepção, se torna essência em uma realidade particular e efetiva, que é a ideia, unidade absoluta do conceito e da objetividade, o conceito que se realiza, o verdadeiro por si e em si. Dizendo de outra forma, o conceito só é se nega a si mesmo tornando-se coisa sensível, o conceito se torna assim a alma o objeto dado agora na realidade que é a sua forma.
            Neste contexto hegeliano, não seria considerada arte qualquer expressão bela que ocorre no mundo sensível. Para ser arte seria necessário que essa expressão atinja um determinado grau de significação, de beleza, atribuindo ao seu produto uma unidade e transcendência bastando-se a si mesma para ser entendida. A obra de arte vive por si só, se expressa por si, se torna completamente autônoma de seu contexto, embora faça parte dele enquanto criação e possa, portanto remeter a ele como expressão, sendo, todavia independente dele historicamente e em si enquanto arte. Como ressalta Hegel (1974, p. 105): de um modo geral, o fim da arte consiste em por ao alcance da intuição o que existe no espírito do homem, a verdade que o homem guarda no seu espírito”. 
Na modernidade, a arte é considerada, segundo Brás (1990, p. 24), a manifestação do infinito na finitude, é a atividade pela qual o espírito se apodera da matéria e se reconhece objetivamente fora de si. A obra de arte se torna um sujeito autônomo unificando a subjetividade e a realidade. É a imagem do que Hegel chama de “Espírito Absoluto”, é puro êxito. Ao ser expressa, a obra de arte entra na esfera do finito, mas é dotada de caráter infinito; seu caráter subjetivo permanece caracterizado pela sua infinidade positiva porque está além de toda realidade finita e se compreende nela toda a esta realidade transcendente imponderável, mas percebida.
            Diferente do pensamento antigo, ao transcender seu contexto, a arte não poderia ser pensada como imitação, pois assim estaria subordinada ao que lhe é exterior, e não bastaria por si só. É também por este motivo que a noção de beleza não pode ser essencialmente constitutiva da obra de arte, uma vez que esse produto da qual a beleza é derivada é a aparição sensível da ideia. Neste viés, beleza e verdade seriam a mesma coisa, distinguindo-se sob o aspecto de verdade em que a ideia seria a manifestação objetiva e universal, mas sob o aspecto do belo ela teria sua manifestação sensível.
            A ideia é a objetividade do conceito, que se apresenta à consciência como saber ou ciência, que se “encarna” na obra de arte. Na arte a ideia não chega a manifestar-se em sua forma própria, visto ser a arte a intuição concreta e representação do Espírito Absoluto em si; isto é, a ideia não chega a realizar-se, mas transparece nas formas sensíveis da natureza, ao mesmo tempo em que, como ideal, está além dessas formas. Assim, a arte se apresenta como o primeiro movimento do Espírito Absoluto.
            Em síntese, a Arte, materializada em suas diversas formas, não é só técnica, nem só expressão; tal qual o homem não é só sua forma ou seu movimento, mas um conjunto, a arte também é assim caracterizada. A arte então, participante substancialmente de uma modalidade de ser metafísico e absoluto, se encarna na história e nela pode ser fonte de um outro ente metafísico que é o Poder. Estabelecer as relações possíveis entre arte e poder se faz necessário para dar conta e complementar da própria definição de Arte.

3. Expressão e “Expressão”: pensando o Poder


            Analisar o Poder da arte requer a distinção deste com o poder que o artista possui, de seu carisma.  Quando um Miguel Ângelo trouxe ao mundo seu Davi, não foi o poder político do governo Florentino, nem a genialidade de seu criador que lhe atribuiu seu poder de expressão. Mas o próprio Davi que se impõe sobre seus espectadores. Nenhuma roupa tem, mas se impõe. Bastou-lhe a pedra que traz na mão para ser Davi, alias, um formoso Davi, que não foi pensado para nos excitar com sua nudez, mais grega que judaica, mas, ao contemplá-lo nos elava tanto à sensualidade grega como à santidade judaica, nos eleva, de uma só vez, a uma e outra perfeição histórica.
            Não se fica impassível ante ao belo efebo, mas não com sentimentos baixos. Seria preciso algum esforço para barrar em nossas sensações o sublime que sua visão nos proporciona. Não é o Miguel que vemos, nem seus patrões florentinos, não é nem mesmo o Davi histórico, mas Davi de inúmeras perfeições percebidas que se fazem materializadas.
            Em um contraponto com Miguel Ângelo, convém ainda uma volta a um passado mais distante para tentar perceber a radicalidade de expressões humanas mais primordiais. Tomemos o período entre 1600 e 1400 a.C, em uma localidade de Salisbury na Inglaterra, e façamos um desvio da arte Egípcia, em uma tentativa de fugir da evidência, pois quando olhamos para obras de arte com conteúdos e formas mais elaboradas, o belo, o grandioso a técnica parecem falar mais alto do que o próprio espírito da obra.
            Utilizemos o recurso da analogia para tentar desvelar essa característica essencial da arte que se faz necessário para, depois, definir em que consiste seu poder. Não temos noções claras das ideias religiosas os povos primitivos, uma vez que, não temos deles, documentos escritos, e que suas expressões pictóricas e arquitetônicas, são raras, incompletas e “mudas”. Piazza (1991, p. 11) considera que o homem do paleolítico superior tinha um cotidiano duro, voltado para a subsistência imediata, da necessidade da caça, pesca e coleta de frutos, sendo caracterizado por uma mentalidade pragmática. Se compararmos as informações que temos de aborígenes australianos ou de certas tribos norte e sul americanas, não seria despropósito dizer que, estamos muito mais bem informados de sua cultura, do que estamos daqueles homens pré-históricos. Entre 3 e 2 mil anos a.C., na Inglaterra, França em áreas mediterrâneas e Índia, começam a aparecer grandes construções feitas em pedra cuja finalidade não é certa. Dentre essas construções encontramos Stonehenge, que é um alinhamento de megaltos formados de Menhir (megalito colocado em pé) e dolmen (megalito colocado encima de dois que lhe servem de colunas, formando como que um mesa ou pórtico), dispostos em cromlech (em círculo delineando um local).
Quando comparamos Stonehenge com a cultura dos primitivos "modernos”, como os mencionado acima, podemos observar que em outros modelos de sociedade que também estavam mais voltados para um pensamento mais pragmático, não ocorreram à mesma necessidade que observamos na Inglaterra, ficando suas manifestações com um caráter mais imediato como o de oferecer segurança, proteger contra as intempéries do tempo e da natureza, ou seja, com um caráter meramente prático e transitório. O que salta aos olhos quando contemplamos o Cromlech de Stonehenge é a marca do desnecessário. Não é como o Davi de Miguel Ângelo que para “ser” teve que plasmar conceitos clássicos e judaicos adequados a necessidade do belo. Stonehenge não teve tais necessidades, no entanto impressiona pelo “supérfluo”. O desnecessário é, por assim dizer, um despropósito que revela que a arte não se rende a figuração do belo, mas é a materialização de uma realidade percebida além da aparência material, não simples mímesis, nem elaboração mental. Na obra de arte, vemos a experiência de ordem transcendente que abarca a sociedade e dá a ela uma forma de ver o mundo alcançando a dimensão ética. Mediado por Stonehenge podemos então fazer referência à Sétima Arte. Como pretendemos abordar as relações que vai entre a arte e o poder, poderemos recorrer ao cinema para perceber como uma realidade pode ser captada além da aparência do real.
            O “Triunfo da Vontade” (Triunf des Willens) é um documento histórico que registra o Congresso do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães que aconteceu em 1934 na cidade de Nuremberg na Alemanha, dirigido primorosamente pela cineasta Leni Riefenstahl. Depois da Primeira Guerra Mundial, o povo alemão passou por dezesseis anos de humilhação e após 19 meses de atuação do Nacional Socialismo, o documento inicia com a visão aérea de uma das cidades mais tradicionais da Alemanha, demonstrando um Hitler sorridente, ovacionado por mulheres e crianças. No final, do documentário, ao ouvir o discurso de encerramento, não é possível encontrar nada que prenunciasse a tragédia que estava por vir. Uma, dentre tantas cenas fabulosas, merece nossa atenção. A cena da revista da S.A. e S.S. e homenagem ao Reichsprasident Paul von Hindenburg. Em tom solene, Heimrich Himmler, Hitler e Viktor Lutze atravessam o estádio repleto de tropas e prestam reverência a uma fabulosa coroa de flores ladeada por piras. Esta cena foi reproduzida despois no filme “O Gladiador”, e nos faz perceber que os alemães não estavam diante de um líder progressista, mas, de um “imperator”.
            A cena, visão de Riefenstahl, foi habilmente manipulada pelo poder do Nacional Socialismo, mas não foi capaz de re-significar o mundo, de trazer uma nova ordem, uma nova visão, uma nova ética.  Como também ocorreu com a arte Socialista Soviética, não se eternizou, pois de fato, não era arte, mas apenas uma figuração intencional.
A partir do que foi colocado nesta seção, como podemos refletir sobre o poder da arte na sociedade? Em português, a palavra “poder” é de certa forma abrangente:

ter a faculdade ou a possibilidade; ter autorização ou direito de; estar arriscado a; ter razões para; ter força, coragem para; ser capaz de; ter ocasião ou oportunidade de; ter possibilidade, influência; posse; jurisdição; abundância; força militar; eficácia, virtude; recursos; capacidade; meios; vigor de corpo e de alma [...] (Dicionário da Língua Portuguesa, 1991, p. 1303,)

 Como o conceito de poder é vago e multifacetado, comumente podemos utilizá-lo em seus significados mais “sentidos” na modernidade, nas modalidades de poder político, poder econômico, poder paterno, poder do Estado, etc. No fim das contas, acabamos por reduzir todos esses “poderes” a duas formas essenciais, que são: o poder que o homem exerce sobre a natureza, e o poder que ele exerce sobre o próprio homem, geralmente utilizado como sinônimo de “Kratos” como poder político. O poder político hoje é visto como poder dominante na sociedade e na civilização uma vez que é caracterizado pelo monopólio da coerção legal que nada mais é do que a capacidade de usar a força para fazer com que o indivíduo siga as normas estabelecidas pelo Estado. Mas essa noção, embora muito difundida, não basta para dar conta da realidade. A partir dessa significação, nada mais podemos fazer do que supor que alguns indivíduos têm mais poder que outros. Esse poder não seria de fato atribuído ao indivíduo, mas à posição que esse ocupa na sociedade e, portanto, à reputação que esta confere ao indivíduo que a ocupa. 
Resta-nos recorrer à fonte latina da qual a palavra “poder” deriva que é Potestas, que, traduzida para o português significa ter a possibilidade tanto ativa ou passiva de algo (FERREIRA, p. 571, 1863).  O termo grego, Kratos, pode significar o Poder do Estado,” o Poder “Econômico”, o “Poder Político”, como coesão (tonos), uma concepção na qual a sociedade é pensada como tensão que existe na sociedade e é capaz dar a ela a paz. Assim, por exemplo, a paz só é possível em oposição à guerra, o bem em oposição ao mal.
            Precisamos incorporar essas possibilidades de pensar o termo “Poder” e para isso podemos recorrer a Foucault para nos ajudar a superar a polêmica ideológica que combate a arte como “representação ‘realista’, simplista, otimista – dos ‘valores proletários; e da vida proletária” (BENJAMIN, 2006, p. 27). Para Foucault (1981, p. 6), nem a esquerda nem a direita colocaram bem o tema do Poder. Para direita o poder era uma questão jurídica proposta em termos principalmente de constituição e de soberania, enquanto que para a esquerda Poder era proposto em termos de aparelhamento estatal. Mas qual é o problema dessas colocações? O ponto essencial é o modo como o Poder é exercido em suas estratégias e técnicas. Com Foucault, podemos dizer que, se tentarmos uma abordagem do Poder da arte do âmbito Ideológico direitista ou esquerdista, nada mais estaremos a fazer que, apresentar a arte como instrumento do totalitarismo ou da dominação de classes.
             Isso nos revela que quando falamos em Poder, não estamos falando em uma essência que deve ser alcança pela arte ou infundida na arte com fins de fazê-la ter Poder. O Poder, conforme colocado por Deleuze (2005, p. 37), não é uma essência, é antes, de mais nada uma relação, do mesmo modo que a sociedade, que também não é uma essência, mas consiste em suas relações.
            Tomaram-se como modelo arquitetônico a Cidade Universitária de Coimbra, construída em estilo Neoclássico durante o período do Estado Novo, que como regime político governou Portugal entre 1933 e 1974, podemos observar sem dúvidas que a sua arquitetura com características monumentais, é eivada de relações entre a arte e a política, que por sua vez revela a relação totalitária entre o Estado e a Sociedade. 
            No entanto, ao observar qualquer forma de expressão utilizada para estabelecer uma relação de poder (kratos) entre a arte e o homem, dos regimes totalitários, vemos o pobre pode de formação que essas obras apresentam. Constituem antes uma forma de opressão como as estátuas de Lênin e Sadam derrubadas logo após as quedas dos dois sistemas opressores na URSS e no Iraque. Não são obra de arte, são apenas formas de expressão que se autodeclaram eternas sem nelas haver nada de universal que diga algo ao Homem. São apenas expressões da brutalidade.
A arte não é somente expressão, nem tão pouco, um saber prático. Fruto do empenho e da criatividade do homem a obra de arte se destaca do seu criador e se torna um ser que habita o universo humano. As experiências de ordem do Homem produzem ordem do mundo e como fruto dessa ordem, que é uma certa forma de compreender o mundo, Algumas manifestações mais elementares ganham uma personalidade capaz de significar uma experiência de ordem, ele se torna dialeticamente, criatura e criadora desse momento.

4. Considerações Finais


            De fato, desde a antiguidade, a expressão artística vem sendo utilizada como forma de persuadir as massas. Os arcos do triunfo, as moedas cunhadas com os rostos dos Césares, os bustos e as estátuas, as torres das igrejas podem atingir certo grau de expressão e de técnica, mas nada mais são do que propaganda. As propagandas dos Césares, Alexandres e Napoleões desse mundo não chegam aos pés daquilo que chamamos Arte. São no máximo suas expressões e técnicas, outdoors sem importância que dirigem a atenção da massa, simplesmente pela utilização de certos símbolos, temas ou formas capazes e influenciá-la enquanto o poder (kratos) for exercido.
A obra de arte é capaz de sobrepujar a especificidade do contexto e se impor através dos tempos. O poder da arte (potestas) é outro. A arte é capaz de receber em si e de transmitir, aquele momento do Espírito Absoluto que toca o fundo da alma humana e eleva o coração do Homem a uma transcendência movida pelo espanto. Do sorriso da Gioconda à Altamira (Espanha há algo, acompanha a humanidade naquilo que ele tem de produtora e produzida, por uma necessidade de se expressar para além do tempo. Por que o sorriso? Por que pintar na pedra as atividades corriqueiras do dia a dia no Paleolítico Superior? Esse algo é um porquê, mas é imponderável, inalcançável para o Individuo, tão caro a nós, percebido na Coletividade, plasmado na História. Assim, podemos dizer com Agostinho (1999, p. 8): “no estudo da criatura, não se deve exercer uma curiosidade vã e perecedoura, mas ascender rumo àquilo que é imortal e permanente”. Enfim, a obra de Arte, surge no esforço obscuro de encontrar as formas simbólicas que exprimam o significado da existência humana. Cada artista dotado de certas qualidades pode captar parte dessa realidade, que é expresso e materializado em sua obra, e, acolhido na sociedade como experiência civilizacional, e nisso consiste em seu poder.

Referências


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AQUINO, T. de. Suma Teológica. [Tradução Coordenação geral: Carlos- Josaphat Pinto de Oliveira, OP et alii]. Tomo IV,  Edições Loyola, São Paulo, 2005.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, c. Os pensadores, ed.  Victor Civitá, São Paulo,  1973.
BAUMAN, Zygmunt.  A Sociedade Líquida. Folha de S. Paulo, São Paulo, 19 de outubro de 2003
BENJAMIN, W. A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica. Recensão Crítica, Lisboa , 2006.
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Dicionário da Lingua Portuguesa. 6ª edição, Porto Editora, Porto, 1991.
DELEUZE, G. Foucault.  Brasiliense, São Paulo, 2005.
DESCARTES. Meditações , c. Os pensadores, ed.  Victor Civitá, São Paulo,  1983.
FERREIRA, E. J. Magnum – Lexicon Novissimum Latinum et Lusitanum, Parisiis, 1863.
FOUCAULT, M. Microfísica do poder.  Edições Graal, Rio de Janeiro,1981.
GOYA, F. The Sleep of Reason Produces Monsters: Plate 43 of The Caprices (Los Caprichos), 1799, http://www.metmuseum.org/toah/works-of-art/18.64.43, Acesso em 15/12/2012, 20:36.
HEGEL, G. W. F..  A Estética – a ideia e o ideal. c.XXX, 1. ed. Ed. Victor Civitá, São Paulo, 1974.
HOGAN, M P. In: Eric Voegelin, Ordem e História, v.1, Israel e  a Revelação, Ed. Loyola, São Paulo, 2009.
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NUNES, B.  Introdução à Filosofia da Arte. Editora Ática, São Paulo, 2008.
PAREYSON, L. Os Problemas da estética. Martins Fontes, São Paulo, 1989.
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SANTOS, M. F. Filosofias da Afirmação e da Negação.  Livraria e Editora Logos Ltda, São Paulo, 1962.

Agradecimentos:

Meus sentimentos de profundos agradecimentos estão relacionados a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, virgem que, serena e de mãos postas nos inspira as verdades mais singelas da fé, e, por si só, se institui em símbolo de justiça social e racial para todo o Brasil, quiçá pra toda a América Latina. In memoriam, agradeço ao senhor Cláudio Pompeu, meu pai, que pelo seu exemplo, me ensinou o valor do trabalho árduo, honesto e diário.

Um comentário:

Bárbara disse...
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