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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Flatus vocis - O problema do subjetivismo na filosofia

A filosofia é a tentativa de explicação racional do mundo. Uma visão que busca entender as coisas como elas são. Mas a razão humana é fraca, e está sujeita ao erro, daí a necessidade de um gênio realmente profundo, penetrante, capaz de penetrar a realidade e conhecer sua estrutura. Na antiguidade grega, apareceram os primeiros filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, preocupados conhecer a realidade e descobrir a verdade – para eles, a filosofia – como define Aristóteles – é a ciência da verdade, isto é, um estudo sério, metódico, crítico, honesto e responsável da realidade metafísica, compreendida esta como tudo que esta além da matéria: meta-física. Lá surgiram pensadores não menos talentosos que se destacam pelo desprezo pela realidade objetiva, exterior ao investigador, estando eles mais preocupados em apresentar seu próprio pensamento, suas opiniões, suas idéias, isto é, mais o produto de sua imaginação intelectiva, que eles consideram como a única realidade: lucubrações mentais, talvez lógicas, mas desconexas com a realidade objetiva e exterior ao homem. Podemos dizer que se trará de um subjetivismo, no qual se pretende apresentar como um pensamento certo e digno de crédito, como uma espécie de certeza interior, mas que, do ponto de vista da honestidade intelectual e pela preocupação de conhecer a realidade, carece de instrumental e de seriedade.
Depois de Aristóteles, a filosofia grega entra em declínio, deixa de explicitar a realidade e como que, se volta para tudo o que já havia sido feito, primeiramente com uma preocupação ética, plasmada no estoicismo e no epicurismo, que retorna à metafísica naturalista dos pré socráticos e de escolas socráticas menores como a cínica e cirenaica, caindo depois no ceticismo e no ecletismo, quando ocorre o desprezo de toda a metafísica e a anulação da moral, voltando-se para a sofistica e para uma filosofia essencialmente prática e hedonista.
Com o advento do cristianismo, a filosofia se revigora. O inicio do evangelho de São João, anuncia aos filósofos que o λόγος, razão do ser do mundo, já não mais inacessível ao intelecto, o λόγος se fez carne e habitou entre nós. Isso significa que a filosofia com características religiosas se encontra com uma religião capaz de filosofar. A filosofia é um saber que se dirige à inteligência e lhe diz o que são as coisas. A religião se dirige ao homem e lhe fala do seu destino, no caso do cristianismo, um destino que o homem deve fazer. Daí se entende que o cristianismo é uma religião intelectual por excelência, porque não só compromete o homem com o que lhe é mais humano, sua razão, seu intelecto, sua vontade, seu amor pela verdade, mas também com Cristo, que não é somente seu fundador, como também objeto de culto, o Deus-Homem, que se identifica com a verdade, a qual, por esta razão, é uma Verdade absoluta. Com a expansão do cristianismo pela exigência própria da evangelização se impõe com exigência de autenticidade uma filosofia natural, como base de uma nova filosofia, preocupada com o conhecimento da Verdade absoluta.
O esforço dos batizados para serem “bons cristãos”, isto é, para se comprometerem totalmente com a fé ensinada por Cristo, alia a teoria a prática, faz do cristão um homem reflexivo, pois comprometer-se completamente para eles significava não só levar uma vida de acordo coma moral cristã, mas também em concordar sua espiritualidade com a fé, isto é sua razão, seu intelecto, sua vontade, seus sentimentos, suas paixões, que deveriam estar empenhados, uma vez que para amar é preciso conhecer. Para desejar e amar a Deus é necessário conhece-lo, é preciso fazer um esforço intelectual para penetrar nos mistérios da fé. A fé de cristão tem que comprometer a razão, o intelecto, sem a qual se cai no “fidelismo” uma acepção dos dogmas da fé sem o desejo de compreendê-los. Este fidelismo sempre foi condenado pela Igreja, que exige uma fé razoável, uma fé esclarecida pela razão, uma fé que comprometa o intelecto do crente. Um sentimentalismo religioso não satisfaz o cristão e, por isso, nasce a famosa fórmula, tão freqüentemente usada pelos filósofos cristãos: fides querens intellectum, intellectus querens fidem. A fé busca, exige, solicita o auxilio da razão e a razão também precisa da fé, porque sem a fé não é possível descobrir toda verdade. Por isso, nada contribuiu tanto para o desenvolvimento da cultura como o cristianismo e, portanto, também a cultura espiritual objetiva, enquanto esta é o efeito do desenvolvimento da pessoa. O cristianismo, sendo uma religião intelectual por excelência, desenvolve tanto a pessoa, como a cultura geral objetiva.
Entra então, a filosofia revitalizada pelo cristianismo, entra pela idade média e vai até o século XIV como uma philosophia perennis, que relaciona a verdade metafísica com o culto religioso da λόγος-Cristo. Mas com o renascimento, se restabelece a ligação com a cultura pagã grega, principalmente com aquelas corretes filosóficas decadentes, voltadas para difusão da “imagem” do mundo sem preocupação alguma se este pensamento é ou não sensato. Há a corrupção do pensamento filosófico, porque o pensador livre renascentista e pós-renascentista se sente “livre” das exigências da moral objetiva: da honestidade intelectual. Não somente deixa de lado a preocupação com a verdade, mas lançam com frivolidade mentiras, apresentando-as como verdades.
Surge então o racionalismo como expressão filosófica que, freqüentemente, só apresenta a preocupação pela razão como tal, além de voltar o pensamento para um antropocentrismo hermético.
O cristianismo é debilitado pela ruptura feita pelo protestantismo e perde a força para impedir a reaparição, cada vez mais forte, das diversas correntes do antigo paganismo, que vai penetrando nos costumes dos povos reavivando as correntes imanentistas e panteístas da filosofia.
O nominalismo surge como um pensamento original, mas causa estragados e desvios profundos na filosofia, que duram até hoje. O nominalismo reforçou o subjetivismo, desviando-se novamente da realidade e da verdade objetiva, já que é oposto ao pensamento realista. Kant, Fichte e Hegel introduzem na especulação filosófica a ambigüidade enquanto a possibilidade de conhecer a realidade divina e realidade humana concreta. A filosofia alemã do século XIX herda de Kant a convicção de que o sujeito ordena a realidade exterior que será, que é, sem ele uma espécie de caos, diríamos um não-ser. Kant não fez mais do que reforçar ou sistematizar uma tendência em voga desde Descartes que consiste em negar, a possibilidade da inteligência para conhecer.
Aberto o caminho subjetivista, pensadores como Rousseau, despreocupados com a realidade objetiva, constroem suas reflexões baseadas no individuo e em hipóteses indemonstráveis e contraditórias como a do bom selvagem e de um estado de natureza imaginário, que nega a sociabilidade natural do homem. Para ele, o homem é, por si mesmo, um todo perfeito solitário (l’individu est par lui-même um tout parfait et solitaire), isto é, que pode prescindir da sociedade e da convivência com os demais. Não há a adaequatio rei et intellectus,.
Voltaire (1694 -1778) chega a ser um mestre para os pensadores idealistas, influenciados pela sua “filosofia” frívola e libertina. Fichte, influenciado pelos acontecimentos da Revolução francesa, introduz a revolução como um tema obrigatório no currículo filosófico. A idéia de progresso de Condorcet e de Comte, vinculada com a de mudança e aplicada na sociedade como uma realidade concreta, estudada na sociologia, permite que a revolução, algo que acontecia apenas no âmbito político e histórico, tome novas dimensões filosófico-sociológicas, inclusive teológicas.
Com pensamento idealista de Hegel (1770-1831), o imanentismo e o panteísmo com temática religiosa Bíblica, secularizam a religião cristã, reduzindo-a a uma pseudofilosofia. Sua filosofia da história é apresentada dentro de uma dinâmica dialética, na qual a Trindade é reduzida a um permanente processo dialético de sucessivas teses, antíteses e sínteses, na qual a idéia se realiza alienando-se. Assim, a história deixa de ser um fenômeno próprio da humanidade, ocupando o primeiro lugar no mundo idealista de Hegel. Sendo segundo Hegel, todo o racional real, e todo o real racional, justificando-se assim tanto as posições realistas como idealistas. Seu subjetivismo imanentista e auto-suficiente, que também pode ser entendido como panteísta, encerrando o Espírito absoluto na consciência e talvez o identificando com Deus, o que por sua vez é identificado com o “mundo” permite dar a história um sentido novo, confundindo-a com um Deus panteísta. Assim na cosmovisão de Hegel, o protagonista dos acontecimentos já não é Deus, nem o homem, mas sim a História como um permanente vir a ser, que arrasta consigo o homem e limita Deus na consciência humana. Vê-se que é construção puramente intelectual e hermética, mas não filosofia em seu sentido pleno. Feuerbach adapta o pensamento de Hegel, colocando a meteria no lugar da idéia-Espírito e assim o processo dialético da história toma um caráter puramente materialista e mecanicista. Karl Marx (1818-1883) cria uma síntese destas idéias apresentando seu “materialismo histórico” e seu “materialismo dialético”, ambos completamente “idealistas” e, por tanto, arbitrários e gratuitos. Sem embargo, é precisamente Marx quem introduz conceitos novos na filosofia, afirmando que a revolução consiste na “inversão de todas as relações, inverte as relações pondo o homem no lugar de Deus, a mentira no lugar da verdade, o ódio no lugar do amor, a luta de classes no lugar da convivência fraternal, etc. Assim a filosofia se desvia de seu objeto e de seu fim, se corrompe e se perverte, apresenta apenas um rigor semântico, e ganha uma projeção universal, pois se propaga através de slogans, mas se torna um emaranhado de idéias contraditórias, quase intransponível para espíritos que embora com algum rigor intelectual, não dispõe de uma visão aguçada das realidades mas apresentam uma erudição venenosa, eivada desses “princípios” subjetivistas que acabamos de expor.



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