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domingo, 2 de março de 2008

DA FILOSOFIA MODERNA E DA NEO-ESCOLÁSTICA



Atualmente estou fazendo pesquisas no campo da moral e da filosofia política. Acredito que a importância básica da filosofia para o comum das pessoas é a possibilidade que ela oferece do aprimoramento do individuo como pessoa humana, a formação moral e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento reflexivo, além de oferecer elementos para compreender a influencia das idéias na sociedade. Para, além disso, ou a filosofia será uma ciência avançada que estará sob domínio de poucos intelectuais e talvez nenhuma importância terá para a sociedade, ou será uma discussão inútil, que confirmará a famosa expressão “a Filosofia é a Ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”.


Considero essa simples colocação como sendo essencial diante do problema das várias filosofias que fazem das massas seu publico alvo. Estas “filosofias” querem oferecer ao homem moderno, múltiplas escolhas, ressaltando o aspecto da liberdade humana, escondendo por trás de suas proposições o fato que todas elas não são senão múltiplos aspectos do mesmo, que o cidadão abraça, sem conseguir se dar conta que através de um processo funesto, acabou perdendo sua liberdade, justamente pelo fato paradoxal de estar sendo “livre” de fazer e de querer qualquer coisa.


De algum modo, tal fenômeno acontece por causa de uma deformação mentalidades que se gerou no terreno filosófico e, sobretudo metafísico. Com efeito, uma metafísica visceralmente errônea corrói o homem no mais profundo dê seu pensamento e de sua atividade. Deturpa irremediavelmente, a sua concepção da ordem moral.


Acredito que a filosofia não está só nos livros, mas principalmente e, sobretudo na reflexão que o homem faz sobre sua atividade, não na perspectiva daquela “liberdade” ilimitada e egoísta, mas sob a perspectiva do bem. Portanto não é apenas nem, sobretudo através dos livros que haveremos de resolver os problemas gravíssimos que fazem sofrer a sociedade. O estado de coisas atual, trazendo em seu bojo uma inversão completa dos princípios do ser e curiosamente, sem razão suficiente, busca através de um imanentismo generalizado, relativizar toda certeza e toda verdade. Assim, o individuo que já não crê realmente em mais nada, se torna capaz de assimilar e de acreditar em qualquer absurdo como se fosse a mais autentica verdade.


É preciso então denunciar, explicitar, combater, este estado de coisas no terreno das artes, da ação política, da vida social, dos símbolos, da religião, e das ciências e também no terreno do pensamento. Mas mais no pensamento vivo que se comunica pela ação pessoal e pelo calor de um movimento constituído por milhares da pessoas em busca dos mesmos objetivos, do que pelo livro. Este por si, não alcança senão um pequeno círculo de eruditos, que não movem o mundo. Tal observação vale especialmente para os livros de filosofia. Mas, aliados a movimentos pujantes, eles constituirão, ai sim, elementos poderosos e indispensáveis para a plena expansão de uma corrente que visa agir sobre a opinião pública, e criar uma escola de ação e pensamento. Eis ai a filosofia viva, “sociabilizada” com vistas de uma ação comum para o bem, baseada no individuo e na consciência, mas não do eu individualista, e sim do Bem e da relação da finalidades das coisas que é inerente ao ser.


A despeito de não ser filiado aos “ismos” filosóficos acredito que três atitudes, aliás, muito contra a maré do carreirismo e do oportunismo profissional e ideológico, são necessárias para uma ação positiva e mais consciente tanto do filosofo propriamente dito, como das pessoas que pretendem pensar nossa sociedade. São elas (pasmem):


A rejeição absoluta da filosofia moderna;


A aceitação da neo-escolástica, embora com restrições;


Uma retomada do pensamento de Santo Tomás de Aquino, ressaltando nele seu traço platônico.
Justifico aqui, tal “escandalosa” e “obscura” posição, começando não por algum argumento seja de qual ordem for, mas da simples percepção de que hoje, o que não faltam são os absurdos especulativos multiplicados pelas possibilidades, que julgam que o possível seja o limite e a finalidade do argumento filosófico, mas que obviamente não é senão a deturpação da filosofia. Só isso!


Precisamos filosofar com bases, com honestidade, com seriedade!


Esta “orgia” do moderno e do pós moderno, do racional e do pós racional, não é senão o caos, travestido de liberdade, de humanismo e de razão pois cada um dos conceitos são afirmados nessas filosofias engendram sua própria negação.


Assim, o inicio da reflexão filosófica espelhada em São Tomás de Aquino, é um afirmação do rigor, da simplicidade, da profundidade e da serenidade da argumentação filosófica. Convicto das qualidades do santo filósofo estou convicto também, de que é uma filosofia que salva e harmoniza as exigências legítimas da ordem objetiva a da ordem subjetiva, do ser e do pensar, do ato e da potência, do inteligir a do querer.


Essa atitude redunda na rejeição da filosofia moderna em todas as expressões desde Francis Bacon e Descartes até Heidegger, Sartre e Marcuse, que fizeram da "filosofia" sinônimo elucubrações mentais, de hermetismo, e de contradição.


Em relação à "filosofia moderna" refiro-me ao que cada sistema tem de especificamente próprio. Não se trata da árdua e inútil tarefa de refutar cada uma das idéias de cada um dos pensadores modernos, mas de discordar dos próprios pressupostos primeiros dos quais todos eles partem.


Qualquer pessoa sadia sabe que homem é homem, o cão ê cão, a pedra é pedra. Essas são evidencias primeiras! A evidência não se demonstra, e não é trabalho de filósofo demonstrar o evidente. O evidente não é objeto em si da filosofia, mas é o princípio pelo qual, depois de ordenado e explicitado, se constrói o quadro geral do qual de deduz a ordem do Universo.


O contrário disso é o absurdo, do qual tudo se segue. Se negarmos a evidencia cometemos um suicídio criteriológico. Renunciamos ipso facto, à validade não só a todo pensamento, mas a toda e qualquer ação humana em qualquer terreno. Colocamos no centro da ordem do ser qualquer coisa: a idéia, a vontade, a matéria, o não-ser, o vir-a-ser, o próprio eu, o irracional, ou qualquer fantasmagoria mais ou menos abstrata que convencionássemos chamar de "deus". Tudo passa a ser uma questão do gosto, da preferência pessoal, do capricho e orgulho absolutamente gratuitos.
Do suicídio criteriológico segue-se à seqüela imediata e indeclinável o suicídio metafísico. O projeto moderno de pensamento é degenerativo, é um o assassinato da razão e à medida que se aceita ser moderno se aceita o suicídio da razão, é a marcha progressiva da razão humana para a aniquilação de tudo o que é humano, é a busca frenética do não ser, do irracional, do capricho, do desregramento das idéias e também dos costumes.


Assim, as abominações mais tresloucadas do um Marcuse - filósofo e símbolo de um estados de coisas - já estão em germe nas elucubrações aparentemente sérias, lógicas e profundas de Descartes, Leibniz, Kant e Hegel.


Com essas provocações quero fazer meus colegas da academia, refletir sobre a aceitação irrefletida do modelo “filosófico”, acadêmico, que sufoca o filosofar (modelo que impede até o surgimento de uma filosofia essencialmente brasileira). Basta de preconceito acadêmico contra as idéias que não são vigentes. Filosofar é preciso.


Mas rejeitando a filosofia moderna, poderíamos pensar que eu seria um exemplar tardio da néo-escolástica. Nada disso.


Acredito que a neo-escolástica tem dois méritos a serem considerados:


A ressurreição do espírito tomista (ou como querem alguns tupiniquins - tomasiano) e a refutação dos pensadores modernos, principalmente de correntes como o idealismo, o positivismo, o modernismo e afins.


Não obstante, são várias as insuficiências e até mesmo desvios que, numa visão equânime, cumpre imputar à néo-escolástica. Dentre elas enumeramos as seguintes:


Insuficiente espírito metafísico;


Simpatia, muitas vezes não confessada, pela filosofia moderna;


Esquecimento e às vezes negação do aspecto platônico da filosofia de São Tomás;


Caráter excessivamente “livresco”, isto é, insuficiente CONTATO COM A REALIDADE.


Como no período de decadência da escolástica, a metafísica não exerceu na neo-escolástica a função régia que lhe cabe em todo o pensamento humano.


Excessivamente preocupados em refutar o erro de seu tempo, os filósofos católicos dos últimos cem anos deram mais atenção à Criteriologia, à Filosofia Natural, à Filosofia Social, do que à Metafísica.


Daí decorreram conseqüências de não pequena monta.


Falta à neo-escolástica o sopro da Sabedoria que enleva e arrasta as almas. Sabedoria, na ordem natural, é Metafísica. Uma filosofia com pouca Metafísica pode convencer, mas não empolga, não transmite luz ao espírito, não ilumina, e se ilumina, não empolga. É prata, e não ou­ro. Facilmente refugia-se em frases feitas, porém mal compreendidas. Dá azo a que qualquer sofista, invertendo inesperadamente os termos do problema encontre acolhida simpática para as teses mais absurdas e contraditórias.


Essa carência do espírito metafísico parece explicar - ao lado do certo oportunismo, do um insuficiente amor de Deus e de outros defeitos morais inegáveis - a facilidade com que largos setores da neo-escolástica “batizaram” o kantismo, bergsonismo, socialismo, progressismo, etc.


Mas o aspecto mais aviltante da neo-escolástica é a simpatia pela filosofia moderna . Numerosos pensadores neo-escolásticos quiseram ser semicartesíanos para agradar aos cartesianos, semi-kantianos para agradar aos kantianos, semi-hegelianos para agra­dar aos hegelianos, semipositivistas para agradar aos positivistas, semimarxistas para agradar aos marxistas, semibergsonianos para agradar aos bergsonianos. E - sempre "atualizados" – são hoje semi “nadas”, pensadores preteridos e de ultima categoria.


O esquecimento do aspecto platônico de São Tomás pode ser notado pela ausência de algumas abordagens. Simbolismo, exemplaridade, arquetipia, ordem e estética do Universo, participação, papel do amor e da vontade no ato cognitivo, eis temas pouco versados nas obras da neo-escolástica, mas que, representam o aspecto platônico sem o qual a verdadeira filosofia de São Tomás fica empobrecida.


Por fim, resta ressaltar o caráter livresco da filosofia que consiste em se fechar dentro do universo dos livros, fazendo a argumentação seguir um percurso de escritos a escritos, de abstrações aos princípios gerais, esquecendo o mundo concreto no qual vivem as pessoas concretas, que são o verdadeiro meio da humanidade. Longe de defender que a Metafísica, enquanto tal, tenha uma finalidade pragmática, ressalto que, como ciência especulativa, seu objeto formal está todo na ordem teórica, contemplativa, que independe das condições de tempo e lugar. Mas o homem vive nesta ter­ra com um fim que deve nortear todas as suas ações, inclusive o filosofar. Ora, a Metafí­sica é um bem como todos os outros que deve contribuir para levar o homem à sua plenitude, e não se fechar numa torre de marfim, alienada do homem, como se o homem que filosofa pretendesse sair do real e constituir uma realidade só ideal. Um filosofar sem finalidade, é uma anormalidade.


O “FINIS OPERANTIS” do filósofo não pode ser uma contemplação diletante, é preciso entender a vida segundos as exigências da ordem do ser.



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