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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

FILÓSOFOS E ESCOLAS FILOSÓFICAS NO BRASIL




Já vimos como a filosofia veio parar aqui nas terras brasileiras e como ela se desenvolveu nas escolas.
A partir de então, pode-se afirmar com toda certeza, que nunca mais os temas filosóficos deixaram de estar entre nós.
Em seu livro, “A Filosofia na Fase Colonial”, Alcides Bezerra apresenta uma lista de autores que trataram de sobre filosofia no Brasil durante o período colonial. Manuel da Nóbrega pode ser considerado o que primeiro, no Brasil, escreveu sobre filosofia ética ou natural. Data de 1568 o seu breve tratado sobre a Liberdade dos Índios. Depois dele vieram: Pe. Antônio Vieira (1618-1676), Diogo Gomes Carneiro (1618-1676), Manuel do Desterro (1652-1706), Fr. Mateus da Encarnação Pina (1687-?), Nuno Marques Pereira (1652-1728), Matias Aires (1705-?), Fr. Gaspar da Madre de Deus (1715-1800), Francisco Luiz Leal (1740-?), Frei Caneca (1779-1825); Pe. Alexandre de Gusmão com o livro, sobre moral.(BEZERRA; 1935).
Mas toda a filosofia desenvolvida no Brasil, até os dias de hoje, carece de originalidade.(PADOVANI; p.525,1993).
De uma maneira geral podemos perceber que atitude do brasileiro face à filosofia e da ciência varia da admiração para a indiferença.Tal fenômeno ocorre por causa daquele complexo colonial a que me referi no primeiro capítulo, ou seja, a atmosfera cultural, já cinco vezes secular influenciada pelas condições de vida social e econômica que sempre estimulou o imediatismo utilitário da solução dos problemas mais imediatos de ordem prática material e econômica que deslocam para segundo plano ou até para o abandono das preocupações culturais e filosóficas. Mas aquela característica que Cruz Costa, Hélio Jaguaribe e tantos outros apontam como um defeito em nossa formação filosófica, a saber o ensino verbalista e literário, talvez seja uma virtude. Quero dizer com isso, que a pesar das necessidades de ordem prática terem sido sempre imperiosas, no contexto da vida social brasileira, por motivos que nos são óbvios, nunca deixamos de cultivar a filosofia, e a crítica de que nossos esforços não são originais nem profundos, não vale,uma vez que nossas condições não foram as ideais para o surgimento de uma cultura filosófica, já que nossa própria cultura e nosso modo de ser estavam se formando. Primeiro precisamos nos manter para sobreviver, depois para nos libertar, depois para manter nossa liberdade e unidade. Por isso não seria raro encontrar em nosso pensamento a simples reprodução do pensamento escolástico, mais conservador, propício a manter a estabilidade e a continuidade do conhecimento filosófico, em contraposição a tentativas de posições particulares, locais ou nacionais de nossos problemas, ou soluções humanas, que caracterizam um grau de reflexão mais elevado e propriamente ético-filosófico. Assim sendo, acredito que foi muito mais favorável para nossa formação o ambiente filosófico dos três primeiros séculos de nossa colonização do que a importação de correntes filosóficas que ocorreram a partir do século XIX. Não obstante é preciso reconhecer que também elas foram e são uma tentativa de solução para os nossos problemas.
Não obstante, é preciso ressaltar que dois fatores podem ter contribuído para nosso fraco desempenho filosófico. Primeiramente a falta de estudos metódicos. A filosofia, assim como outras ciências, requer a submissão às exigências de um estudo metódico, de uma disciplina regular na aquisição progressiva dos conhecimentos. Outro fator, é que mesmo quando se havia o ensino da filosofia, esta era apenas preparatória para jovens adolescentes que tinham que estudar os manuais para cumprir o currículo escolar, mas que no final das contas, sempre consideraram a filosofia como luxo completamente dispensável.
A despeito de tantas dificuldades, o Brasil não ficou sem seus filósofos.
Silvio Romero nos dá um quadro das correntes filosóficas que ocorreram no Brasil entre o final do século XVIII e no século XIX, a começar pela influência francês de Destut de Tracy e Laromiguière, e do ecletismo espiritualista de Cousin e Jouffrouy (1820-1850) que geraram em nossas terras pensadores como Monte-Alverne e Eduardo França, bem como de seguidores do ecletismo como Domingos G.Gonçalves de Magalhães e Morais do Vale. Daí seguiram reações de duas linhas, primeiramente a reação católica de Patrício Muniz e Soriano de Souza, e também do agnosticismo crítico, que adotou o monismo de Haeckel e Noiré, tendo como principal representante o famoso Tobias Barreto. (ROMERO; p.444-445, 1949)
Na segunda metade do século XIX temos duas correntes positivistas. A primeira, a corrente positivista de Littré, cujos principais representantes foram Luiz Pereira Barreto, Martins Junior e Souza Pinto, e a corrente positivista ortodoxa com Miguel Lemos, Teixeira Mendes, Benjamin Constant, Álvaro Joaquim de Oliveira e vários outros seguidores de menor importância. (ibidem, Idem)
No mesmo período ocorre também o evolucionismo sobre duas tendências distintas a saber, a corrente spenceriana com Silvio Romero, Artur Orlando, Clóvis Beviláqua, Samuel de Oliveira, Liberato Bittencourt, França Pereira, e outros de menor importância, e a corrente hackeliana, com Domingos Guedes Cabral, Miranda Azevedo, Lívio de Castro, Fausto Cardoso, Oliveira Fausto e Marcolino Fragoso. No mesmo período surgem também algumas tentativas independentes de filosofia representados por Estelita Tapajós, pelo Visconde do Rio Grande (J. de Araújo Azevedo)e por aquele que é considerado o primeiro filósofo brasileiro Raimundo Farias Brito(1862-1917). (Ibidem, idem)
Estas primeiras tentativas independentes constituem os primeiros frutos de uma filosofia “brasileira” embora sejam ainda deficientes mas, é preciso ter em vista que assim como o desbravamento e consolidação do território nacional se deu por influência daqueles bandeirantes que penetraram nas matas vencendo obstáculos de todas ordem e assim chegaram, através de seus fracassos e vitórias a espalhar a civilização pelo que hoje é o Brasil também os esforços filosóficos havidos desde que a educação plantou suas raízes entre nós passando por aqueles que foram simples expositores de idéias, por aqueles que foram críticos do pensamento, chegam até esses últimos que se julgam originais,sem o ser, ficai ai colocado uma tentativa de pensar o Brasil.
Farias Brito se depara com uma condição humana paradoxal:

Filosofar é aprender a morrer: são as palavras de Sócrates.E começando o trabalho com a idéia do mais puro dos pensadores antigos, não tendo em vista outra coisa senão tomar desde logo bem patente quanto nos deve preocupar o nada da nossa existência humana.Vivemos todos como se fossemos imortais, entretanto a morte é a única solução verdadeira do problema da vida. É assim que nossa atividade se desenrola sobre mil formas: pensamos e trabalhamos e nosso pensamento e nosso trabalho constituem uma luta constante, uma reação permanente contra inumeráveis influencias internas e externas; mas ao mesmo tempo que vamos pelo esforço de cada dia acumulando elementos para o combate da vidas, vamos do mesmo modo caminhando invariavelmente para a morte. (BRITO, p.13, 1957)

A partir dessa condição humana, e do ambiente cultural de sua época, Farias Brito surge como apóstolo da regeneração moral, com uma filosofia da crise que surge da consciência de nosso incerto e frágil existir que busca superar o mal pela verdade, mediante uma nova, absoluta e definitiva religião.

Considerando a dolorosa contingência a que estão sujeitas todas as nossas condições existenciais, quanto há de ilusórios em todas as nossas inspirações, a quanta desgraça estão sujeitos todos nós que vivemos condenados á morte, desconsiderando ou nada de todas as grandezas humanas, querem indagar essa imensa natureza que nos cercam, quero numa palavra, interrogar os segredos da consciência de modo a explicar a cada um a necessidade em que esta de compreender o papel que representa no mundo. Tudo passa tudo se aniquila. Pois bem eu quero saber: se do que passa e se aniquila alguma coisa fica, em virtude da qual se pode ter amor ao que já existe ou possa existir; se do que passa e se aniquila que não há de passas nem aniquilar-se: quero estudar esta ciência de que falava Sócrates, quero ensinar aos que padecem como é esperar com serenidade o desenhar da morte, quero dirigir aos pequenos e humildes palavras de conforto; quero levantar contra os tiranos as espada da justiça; quero em uma palavra, mostrar para todos que antes de tudo e acima de tudo existe a lei moral,e que é somente para quem se põe fora dessa mesma lei que a vida termina. (Ibidem, p. 21-22 )

O que Farias Brito aponta é a necessidade da metafísica. Para ele a filosofia é uma concepção do mundo, uma teoria que da a explicação de cada coisa no conjunto da fenomenalidade universal. Em um certo sentido a filosofia se distingue da ciência uma vez que essa é um conhecimento já feito, organizado e verificado, ao passo que a filosofia é um conhecimento em via de formação. Assim Farias Brito imprime uma dinâmica em sua filosofia, uma vez que segundo suas concepções ela é o princípio gerador da ciência e a base do sentimento moral, mas, não é propriamente uma ciência, nem sequer um dos ramos do conhecimento, mas, o princípio gerador do conhecimento. A filosofia é inteligência em ação explorando a natureza e produzindo a ciência, é o próprio espírito humano em sua atividade permanente e indefinida. (BRITO 1957).
O que claramente se percebe é que Farias Brito se depara com os problemas centrais da filosofia e do sentido do universo e neles permaneceu até o fim tentando alcançar uma solução que sabia ele que poderia ser apenas satisfatória mas nunca conclusiva,dada à atividade contínua do espírito. Certamente as críticas feitas a Farias Brito são movidas por motivos ideológicos pois seu pensamento foi acolhido pelos católicos de maneira geral e em especial por Jackson de Figueiredo (1891-1928) que foi o filósofo brasileiro que deu origem ao centro Dom Vital, cuja finalidade era reunir a elite pensante brasileira para as lutas apostólicas,defesa da Igreja e da ordem social vigente, direcionando essa atividade para uma atuação política direitista. Nesse sentido é que a maioria de seus opositores vão situar sua filosofia. Um exemplo acabado de como não devemos ler Farias Brito é o livro de Sylvio Rebelo, “Farias Brito” que pretende desmoralizar todo o esforço do filósofo, a partir de uma visão mais apologética do que técnica. (RABELLO 1967).
Devemos analisar o pensamento de Farias Brito a partir do momento cultural em que viveu, e dos problemas que quis resolver. É fato que no pensamento brasileiro do século XIX reinava o imanentismo, concepção do mundo segundo a qual o Absoluto é encerrado nos limites do ato humano, contido na realidade mundana e terrena. Não existe nenhum princípio transcendente nenhuma influência de Deus no mundo, ficando assim o homem sozinho no universo tendo que realizar então o seu reino sobre a Terra. Não é preciso dizer que tal concepção leva ao ateísmo e ao materialismo. Em oposição a corrente imanentista, a escolástica que desembarcou no Brasil já no início de nossa história filosófica, se renova no início do século XX por influência da Igreja que reconhece o Tomismo como sua filosofia oficial e recomenda a retomada do caminho trilhado por Santo Tomás. (LEÃO XIII; 1950).
No Brasil não havia uma tradição escolástica estruturada, mas isso não impediu que a corrente renovada da antiga filosofia tomista, agora com o nome neotomismo se espalhasse por toda intectualidade brasileira.
O principal filósofo adotado por essa corrente foi Jacques Maritain. A primeira grande iniciativa de fortalecimento da filosofia foi feita pelos beneditinos de São Paulo sobre o comando de Dom Miguel Kruse, que fundou no mosteiro a faculdade livre de filosofia, agregada em 1911 à Universidade Católica de Louvain (Bélgica) que foi reconhecida em 1936 pelo governo federal. Depois com a fundação centro Dom Vital em 1921 começa um grande movimento cultural no sentido neotomista. Estruturam-se institutos católicos superiores no Rio de Janeiro, Juiz de Fora, instituem as primeiras faculdades que na década de 40 se tornarão as faculdades católicas.Surge a iniciativa de tradução da Suma Teológica por Alexandre Correia, a Tradução das obras das Maritain, bem como de vários pensadores neotomistas como Régis Jolivet, Gilson, e surgem vultos de renome como Alceu de Amoroso Lima, Gustavo Corsão, Leonel Franca e Plínio Correa de Oliveira.
O pensamento neotomista alcança uma presença cultural incrível e os cursos de filosofia de organizam quase em todos estados, tanto nas universidades católicas como nos estabelecimento de ensino superior.São vários os nomes de pensadores neotomistas (Arruda Campos; 1968) mas merecem menção principalmente o de Leonel Franca e Plínio Corrêa de Oliveira.
Leonel Franca (1893-1948) foi um famoso jesuíta fruto final daquele espiritualismo que Farias Brito queria resgatar. A obra de Leonel Franca é de caráter polêmico. Escreveu sobre o divórcio na década de trinta, contra os protestantes entre 1922-1938 gerando ai três livros “A Igreja a reforma e a civilização” (1923) “Catolicismo e protestantismo” (1923) e “Catolicismo no Brasil” (1938) cujo o primeiro é sem sombra de dúvida um dos melhores escritos e esse respeito até hoje, e junto com “A crise do mundo moderno“ (1941) constituem suas obras de maior importância.Franca não reconhece qualquer valor em toda cultura moderna, critica a matemática de Euler, a astronomia de Laplace, a ciência de Lavoisier, a filosofia de Rume e Kant e a literatura de Goethe e condena em bloco a revolução francesa. Isso porque para Franca, a noção de cultura só se torna clara quando relacionada à noção de civilização. Entre civilização e cultura vemos a diferença que existe entre o todo e a parte: não opomos as duas idéias, como adequadamente distintas e, menos ainda, antagônicas.Integramos uma na outra. A cultura representa numa civilização o elemento específico que lhe traz o homem, como o desenvolvimento de suas potencialidades e energias naturais. A civilização, conceito mais amplo, compreende, além disto, as influencias múltiplas e misteriosas que sobre a vida de uma comunidade como a terra e a raça.
Assim cultura seria a contribuição humana no processo civilizatório, que se faz através de uma concepção da vida e de suas finalidades, na qual se encontra quase sempre a ação dominante de uma personalidade excepcional. Em torno de seus ideais forma-se um núcleo de expansão transformadora, o escol, que não é simples grupo de pensadores, isolado na torre de marfim com suas cogitações, mas sim a alma da massa, que penetra em toda sua extensão e vive em continuidade com ela e a transforma como um fermento. A esse escol vão se fazendo adesões e com o passar dos tempos as instituições se modelam segundo aqueles ideais. Assim uma concepção do homem e de seus destinos consegue descer às multidões e ser a espinha dorsal de uma civilização. Para Franca embora as idéias representem um fator de destaque no processo civilizatório, esse papel não se torna fundamental. Mas o fator místico:

...a filosofia,enquanto permanece na sua esfera própria e se dirige às inteligências pelos seus próprios métodos específicos de demonstração racional, é pouco menos que estéril. Só a religião possui o segredo de levar as mais altas concepções à consciência das massas e transforma-las em ação e vida social arvoram-se em religiões e procuram decalcar os seus processos de organização e propaganda pelas formas naturais da vida religiosa. O budismo oferece-nos, na antiguidade oriental, um exemplo desta metamorfose de uma filosofia,que, descendo ao povo, se faz religião. Em nossos dias, o comunismo,aspirando a plasmar uma nova ordem de coisas, criou ao lado de um sistema de idéias - bem pobres - uma “mística” dinamizadora das energias emotivas. É uma confirmação involuntária e, por isso mesmo, mais persuasiva,do papel primordial e insubstituível da religião na vida concreta e palpitante dos povos. (FRANCA p.43, 1942).

Daí, a pouca autonomia do saber filosófico, pois:

...todo o progresso material resolveu-se incapaz de satisfazer às exigências profundas da nossa natureza. É a lição mais trágica que nos dá o mundo contemporâneo, inquieto e convulsionado. Em face do aperfeiçoamento maravilhoso dos meios esquecemos o fim. E nesta subversão metafísica de valores manifesta-se um dos sintomas mais alarmantes de decadência... Urge, pois, restituir à nossa civilização periclitante as forças interiores que asseguram a todo esforço social a sua vitalidade. A secularização de uma cultura é sintoma de dissolução e prenúncio de morte. Só um dinamismo espiritual lhe salva a vida e conserva o equilíbrio de todos os seus elementos.
Mas esta revitalização profunda de uma civilização abalada em seus fundamentos não será o efeito de meias verdades ou de paliativos ineficazes. Não basta o apelo vago à dignidade do homem ou aos valores do espírito. O verbalismo generoso não consegue insuflar calor e força regeneradora a sonoridades vazias sem conteúdo real. Cumpre reintegrar o homem na plenitude das riquezas de sua natureza e para isto colocá-lo em cheio na orientação de seus destinos transcendentes. Se outras fontes de verdade não no-lo ensinassem com certeza inabalável aí está a experiência dos séculos, com o peso de seu testemunho universal, para nos dizer que os tesouros da própria vida natural do homem não se podem salvar nem defender sem a participação plena da vida sobrenatural. A humanidade, na economia presente da Providência, ou eleva-se com uma opção decisiva à altura de sua vocação transcendente ou, fechando-se sobre si num egoísmo soberbo e estéril, cai irremediavelmente abaixo de sua dignidade. (FRANCA, p.265-266, 1942).

Com igual ímpeto surge no panorama do neotomismo brasileiro contemporâneo a Leonel Franca a figura de Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995).
Corrêa de Oliveira não se definia como filósofo, mas como pensador. Ele não se atinha aos aspectos puramente técnicos das questões doutrinárias, mas os tratava de um modo vivo e variado. Partindo de uma observação muito fina da realidade, da psicologia humana, dos fatos, bem como de um profundo conhecimento histórico, ele analisava a cena contemporânea ao mesmo tempo em dois aspectos de um ponto de vista muito próximo (os fatos) e muito alto (uma visão dos fins últimos do homem, da sociedade e da História).
Nesse sentido ele escapa de todos os padrões e de todas as escolas de pensamento. Não se trata de ecletismo, de uma mistura de escolas, mas de uma elaboração própria à partir desse mirante (visão geral) iluminando e guiando uma análise de psicologia social, sociológica, histórica e mesmo teológica dos acontecimentos.
A síntese de seu pensamento, o arcabouço, encontra-se em Revolução e Contra-Revolução, sobretudo na I, II partes, onde ele explica o fenômeno revolucionário, em seus traços históricos fundamentais e em seu mecanismo psicológico e moral na alma humana. E a Contra-Revolução com seu mecanismo próprio.
Embora vários dos temas e teses da “Revolução e Contra Revolução” tenham sido tratados por outros autores, nenhum chegou a uma síntese tão completa e tão profunda, a uma visão de conjunto tão abarcante.
Embora se possa ver reflexos, em seu pensamento, dos grandes pensadores católicos como Santo Agostinho e Bossuet (filosofia da História) Santo Tomás de Aquino (concepções gerais, vocabulário e instrumental), dos autores tradicionalistas como Joseph de Maistre (em sua crítica ao igualitarismo), Donoso Cortes, etc., não se pode dizer que ele se baseou nestes autores. Isto porque o processo mental de Corrêa de Oliveira não era um processo mental acadêmico, a partir do estudo das teorias dos grandes pensadores. Seu processo mental, seu modo de estudar era muito brasileiro, muito intuitivo, com essa capacidade do brasileiro de fazer conexões, de passar de um campo do saber para outro, mas sobretudo de captar a teoria nos fatos vivos, na observação do que se passa agora e nos fatos da História.
Nesse sentido, Corrêa de Oliveira foi talvez o mais brasileiro dos pensadores, o que levou mais longe esse misterioso “intuicionismo” brasileiro que dá como que, num flash, uma certa compreensão profunda das coisas que precede e guia a reflexão e o estudo.
Brasileiro e original também pela facilidade de aplicar os princípios mais profundos da Teologia, da Filosofia e demais ciências do espírito, aos fatos concretos, à atividade política, aos problemas sociais e econômicos. Nesse sentido os “Manifestos” que escreveu a vida inteira, os livros polêmicos como “Reforma Agrária Questão de Consciência” e outros do gênero, a análise de complicadas manobras político-psicológicas como a “Baldeação ideológica Inadvertida e Diálogo” ou político-morais como “A liberdade da Igreja no Estado comunista.”
Um pensamento vivo, abarcante, rico em aspectos, inclusive literários. Mas um pensamento sobretudo combativo: o contrário de um saber diletante (por puro gosto pessoal) ou acadêmico (como uma carreira), mas um saber empenhado em intervir nos acontecimentos e em preservar os valores nacionais.
Declara-se tomista convicto, com particular atenção voltada a filosofia da história, em função da qual o ilustre pensador divide sua vida em estudo e ação. (CATOLICISMO; p.3, 1996)
Então, a atuação de Plínio Corrêa de Oliveira como pesador deve ser entendida pela difusão doutrinária e pela polêmica. A base dos dois tipos de escritos do pensador é sua obra essencial “Revolução e Contra-Revolução”, cujo ponto central é a noção de que as grandes transformações históricas resultam da atitude do espírito humana perante a religião e a filosofia. (CORRÊA DE OLIVEIRA; 1982). A palavra revolução, que originariamente é um termo proveniente da astronomia usado para indicar o movimento celeste dos astros, ganhou novo significado no século XVII, depois da revolução francesa, que passou a ser o arquétipo de todas as revoluções. Tema fundamental do pensamento político, a revolução é a palavra chave para entender a nossa época, e a análise da idéia de revolução é um dos principais temas de filosofia, pois principalmente no século XX as guerras e revoluções foram o principal fator de mudanças. Mas não é só uma revolução no sentido de uma guerra de que trata Plínio Corrêa de Oliveira mas a revolução dos espíritos, a revolução da mentes. Para Corrêa de Oliveira, a revolução não indica a subversão de uma determinada ordem constituída e, portanto a revolução também não é uma reação face a uma realidade à qual se opõe. O conceito de revolução de Plínio Corrêa de Oliveira está mais ligado ao dos pensadores como Joseph de Maistre, Pierre de Clorevière, Louis de Bonald, Juan Donoso Cortês, Karl Ludwig van Haller, Cardeal Edouard Pie, Monsenhor Charles Fleppel e Monsenhor Henri Delassus. Também influenciam nessa concepção alguns documentos pontifícios do tempo de Pio IX e Pio X, bem como nos chamados ultramontano, adversários do liberalismo católico como Louis Veuillot, Santo Antônio Maria Clarete, Cardeal Henry Edward Mening e Frederick William Faber. O pensamento de todos esses autores foi re-elaborado por Correa de Oliveira com novo desenvolvimento que faz do autor o autentico mestre de escola filosófica no século XX. Então dai a revolução é entendida como um processo, considerado no seu conjunto e também nos seus principais episódios, é vista pelo pensador brasileiro como o desenvolvimento por etapas, e através de contínuas metamorfoses, de algumas tendências desregradas do homem ocidental e cristão e dos erros que estas fomentam. Para Corrêa de Oliveira a mola propulsora desse processo esta no orgulho e na sensualidade. O orgulho leva o ódio a qualquer superioridade e, pois a afirmação de que a desigualdade é em si mesma em todos os planos, inclusive e principalmente nos planos metafísicos a religioso um mal. Por outro lado a sensualidade de si, tende a derrubar todas as barreiras, não aceita freios e leva à revolta contra qualquer autoridade e qualquer lei.
Estes dois aspectos da revolução têm em última análise um caráter metafísico que se conciliam na utopia marxista de um paraíso anárquico, em que a humanidade evoluída e emancipada, vive em uma ordem profunda sem uma autoridade política numa liberdade total e sem qualquer desigualdade.
Na década de trinta Corrêa de Oliveira ataca fortemente o nazismo e o comunismo (O LEGIONÁRIO, nº 241, 1937; nº 296, 1938), denunciando a conexão entre os dois regimes totalitários e depois da segunda guerra mundial, se choca violentamente com o pensamento marxista que começava a entrar no Brasil.Esse embate durou até sua morte em 1995, passando por momentos decisivos para o Brasil, como o golpe militar de 64.
Atacando os liberais católicos por um lado e os marxistas por outro, Plínio Corrêa de Oliveira teve seu nome banido dos meios católicos e fortemente caluniado pelos setores de esquerda da política nacional.
Não obstante, foi reconhecido como pensador de profundo conhecimento filosófico, histórico e sociológico, e eco fidelíssimo de todos os documentos do supremo magistério da igreja. (CARD. PIZZARDO, apud, Corrêa de Oliveira; p. 4, 1964).
Em maio de 2007, a CIA, Agência Central de Informação dos EUA, publicou seus arquivos secretos, nos quais constatam a importância de Corrêa de Oliveira, na luta contra o comunismo no Brasil e na América latina. (CATOLICISMO, outubro, 2007).
Paralelamente a atuação do neotomismo de Leonel Franca de Plínio Corrêa de Oliveira e tantos outros, surgia 1934 na capital paulista a Universidade de São Paulo com sua faculdade de filosofia, ciências e letras, com a dupla finalidade de desenvolvimento da cultura filosófica e científica e de formação de professores secundários. Na USP a formação filosófica se dava com forte influência européia e principalmente francesa, o que lhe valeu posteriormente a alcunha de “um departamento francês de ultramar” (ARANTES, 1994)
Da USP é que vai surgir uma filosofia mais estruturada. Na concepção uspiana a filosofia é antes de tudo explicação e discurso, e a verdade se confunde com a procura da verdade. Podemos dizer que a USP trouxe à filosofia brasileira a consciência na realidade de um pensamento mais bem estruturado, seus frutos se traduzem na formação de professores técnicos em filosofia mas com a preocupação central voltada para o ambiente da universidade sem corresponder as necessidades e realidades da sociedade que a sustenta e um ambiente estritamente acadêmico. Mas tem o seu lugar garantido na história da filosofia brasileira pois produziu nomes como Paulo Arantes; Marilena Chauí; Fernando Henrique Cardoso; Jose Arthur Gianott e muitos outros. Também correndo por fora da raia neotomista surgem dois intelectuais que merecem destaque. São eles: Mário Ferreira dos Santos e Olavo de Carvalho.
Mario Ferreira dos Santos (1907-1968) foi um pensador que manteve uma completa independência da participação política e literária de seu tempo. Dedicou sua vida silenciosamente com magistério particular a advocacia e ao ramo editorial. Por volta de 1945 começa a publicar seus livros e, contra a opinião geral daqueles que achavam que as obras de filosofia não poderiam surgir nem alcançar a apreciação do público brasileiro, Mário Ferreira dos Santos empreende a publicação de uma imensa obra a “Enciclopédia de ciência filosóficas a sociais” que abrange 45 volumes, dedicadas ao estudo de caráter teoréticos e histórico-crítico. Suas obras nunca foram divulgadas e o filósofo nunca ocupou nem um cargo em nenhuma escola ou faculdade. Apesar dessa sua discrição, o interesse por suas obras alcançou interesse considerável e até hoje são muito procuradas e apreciadas.
A posição de Mario Ferreira dos Santos a respeito da filosofia é justamente contrária a daqueles que acham que a filosofia brasileira e incipiente por não estar vinculada ao desenvolvimento histórico e filosófico europeu.Para ele o fato de nós, brasileiros por vivermos materialmente o universo humano e, por não termos compromisso histórico que pesem demasiadamente sobre os nossos ombros, nem tão pouco compromissos filosóficos, somos um povo apto para uma filosofia de caráter ecumênico, uma verdadeira filosofia, pura tal qual foi concebida em sua origem. Para ele a única autoridade na filosofia é a demonstração, que deve ser apodítica, e, se possível, com juízos necessários e exclusivos, o que ele chama de “filosofia concreta”. Mario Ferreira dos Santos traz uma posição muito interessante a respeito de nossa relação com o pensamento universal: “podemos viver universal, no sentido puramente quantitativo, os modos de ver e de sentir dos diversos povos, mas não podemos permanecer na situação de ser um povo que recebe todas as idéias de todas as partes, que não pode encontrar um caminho para si mesmo...” (Ladusâns; p.416 1976.)
Assim sua filosofia considera todas as correntes filosóficas no sentido de que toda reflexão filosófica atual é a restauração ou o resurgimento de velhos erros refutados já séculos, que são considerados como extraordinárias inovações por aqueles que não conhecem a tradição filosófica. Sua obra é um esforço de síntese de toda essa tradição, mas de uma forma simples, traduzidas em livros destinados a alcançar as grandes massas populares, pois só assim a filosofia poderia colaborar para humanizar a civilização contribuindo para tornar evidente o valor da pessoa humana e para alcançar a paz interior e a felicidade do homem.
Olavo de Carvalho (1947) é um filósofo em plena atividade, e, portanto sua história ainda não está acabada. Ex-comunista, Carvalho, chegou a freqüentar três anos da Faculdade de Filosofia da PUC, até abandonar o curso e se tornar autodidata.
O primeiro livro foi publicado em 1980 e chama-se “A imagem do homem na astrologia, um livro sobre astrologia”. Em 1996, publica o livro que o torna conhecido, “O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras”, dedicado a critica do meio intelectual brasileiro, escrevendo também vários artigos a esse respeito que podem ser encontrados em seu web site. Escreveu em vários jornais e revistas de renome como “Bravo!”, “Primeira Leitura”, “O Globo”, “Época” e “Zero Hora”, “Jornal do Brasil” e “Diário do Comércio”. Em 2002, lançou, com o apoio financeiro da Associação Comercial de São Paulo, o site de notícias conservador “Mídia Sem Máscara”. Desde 2006 reside nos EUA.
A principal característica do pensamento de Carvalho é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia científica, ideologias aqui entendidas, na obra do autor, entre outras como o positivismo, cientificismo, evolucionismo, comunismo e socialismo. Considera que há um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual. Crítica fortemente a concepção dos intelectuais que se arvoram como instância quase que exclusiva do conhecimento válido.
Para Carvalho as religiões tradicionais como taoísmo, judaísmo, cristianismo e islamismo, seriam um refúgio para a consciência individual contra a alienação.
Nesse contexto, procura identificar novas formas de interpretação para os símbolos e ritos daquelas tradições espirituais no sentido de fazer delas um sistema de pensamento filosófico e científico, que pode ser usado na resolução dos problemas hodiernos da cultura e da civilização.
Sua obra de maior fôlego é “O Jardim das Aflições - De Epicuro à Ressurreição de César: Ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil”, na qual estabelece uma relação de princípios entre Epicurismo e Marxismo.
Grande divulgador do pensamento e da cultura Carvalho coordena a edição e a reedição de varias obras como a Biblioteca de Filosofia da Editora Record; “Ensaios Reunidos de Otto Maria Carpeaux”, pela Editora Topbooks, tendo escrito vários prefácios, posfácios, anotações e introduções a obras de pensadores e intelectuais diversos, José Osvaldo de Meira Penna, Constantin Noica, Alain Peyrefitte, Jean-François Revel, Eugen Rosenstock-Huessy, Mário Ferreira dos Santos e outros.
Seu pensamento não está voltado para a tradição filosófica, mas para as questões atuais, principalmente as que se referem ao Brasil.
A critica de Carvalho passa por considerações sobre a academia e elite intelectual brasileira, abortando nomes como Marilena Chauí e Emir Sader, denunciando a atuação desses intelectuais que redundam no aparelhamento e patrulhamento ideológico, imposturas acadêmicas e falácias intelectuais, e o fato deles e seus seguidores levarem em consideração exclusiva as massas, o materialismo e o culto ao Estado, em detrimento do indivíduo e da liberdade de consciência. Passa também pela critica dos movimentos políticos de esquerda, do Socialismo, dos movimentos sociais e das organizações globais, entidades como a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller, o Council of Foreign Relations, o Fórum Social Mundial e a Indymedia e indivíduos como George Soros e Al Gore e, no Brasil, o Foro de São Paulo, a CNBB, o MST e o Partido dos Trabalhadores, entre outros, e atualmente tem estudado o movimento abortista e o ativismo gay no Brasil, que estaria, segundo o autor, integrados a movimentos de internacionalização e revolução cultural com o objetivo de massificação de desvalores materialistas.
Por este brevíssimo retrospecto da filosofia entre o século XIX e XX podemos observar que nossos pensadores estão afinados com nossos problemas e também com o mundo contemporâneo com uma atuação vigorosa e impactante. Farias Brito restaura a necessidade de uma visão transcendental da realidade, sem a qual não pode haver filosofia, uma vez que a filosofia não é a ciência propriamente dita, que estuda as causas próximas.Por estudar as causas primeiras, Farias Brito sentiu a necessidade de atentar para o que é transcendente. Inspirou e deu forças a correntes filosóficas mais ligadas ao catolicismo a ressaltar esse aspecto. No seio do próprio catolicismo surge Plínio Corrêa de Oliveira receptáculo de toda tradição católica que desfere golpes incisivos contra os regimes totalitários e suas filosofias, bem como o ataque preciso as correntes de infiltração imanentista do catolicismo moderno, em suas respectivas correntes filosóficas. Mario Ferreira dos santos propõe uma obra filosófica de síntese acessível às massas com a finalidade de distinguir a reedição de vários erros filosóficos e de procurar um caminho autêntico para uma filosofia brasileira, e Olavo de Carvalho se insere na análise das questões mais atuais da sociedade contemporânea desvendando os seus mecanismos totalitários de manipulação do indivíduo.
Esses quatro pensadores, não se inserem de maneira alguma no conceito acadêmico de filosofia, mas são autênticos pensadores que constituem pelo menos a nossa história da filosofia. Não estudá-los é ignorar parte dos problemas o que o povo brasileiro tenha se deparado nesses dois últimos séculos, para procurar as respostas em pensamentos importados e alienígenas, é no problema desse pensamento importado que deveremos tratar logo a seguir.


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