SE O TEMPO FOSSE OURO..., TALVEZ PUDESSES PERDÊ-LO. - MAS O TEMPO É VIDA, E TU NÃO SABES QUANTA TE RESTA.
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

PRIMEIRO ANO - PRIMEIRO BIMESTRE - CÍCERO



APRENDER A ENVELHECER
Não há pior calamidade para o homem que o prazer do sexo, dizia ele; não há flagelo mais funesto que essa dádiva da natureza. A busca desenfreada da volúpia é uma paixão possessiva, sem controle. Ela é a causa da maior parte das traições em relação à pátria, da queda dos Estados, das conivências funestas com o inimigo. Não há um crime, uma prevaricação que a concupiscência não possa inspirar. É por causa dela que se cometem violações, adultérios e outras torpezas. Se a inteligência constitui a mais bela dádiva feita ao homem pela natureza - ou pelos deuses -, o instinto sexual é seu pior inimigo. Onde reina a devassidão, obviamente não há lugar para a temperança; lá onde o prazer triunfa, a virtude não poderia sobreviver. Para fazer compreender isso melhor, Arquitas sugeria que se imaginasse um homem no auge da excitação voluptuosa. Nesse estado de extremo gozo, como poderia formular o menor pensamento, refletir ou meditar legitimamente? Assim, nada é mais detestável que o prazer. Quando ele é intenso e perdura, é capaz de obscurecer totalmente o espírito. Tais foram as palavras pronunciadas por Arquitas durante uma conversação com o samnita Gaio Pôncio (cujo filho triunfou dos cônsules Espúrio Póstumo e Tito Vetúrio em Caudinium). Meu anfitrião, Nearco de Tarento, sempre devotado a Roma, dizia-me tê-las ouvido de seus pais e seus avós. O próprio Platão de Atenas teria assistido a essa conversação: descobri que ele se encontrava de fato em Tarento durante o consulado de Lúcio Camilo e de Ápio Cláudio.
Por que contei tudo isso? Para vos fazer compreender que, se o bom senso e a sabedoria não são suficientes para nos manter afastados da devassidão, cumpre agradecer também à velhice por nos livrar dessa deplorável paixão. A volúpia corrompe o julgamento, perturba a razão, turva os olhos do espírito, se posso me exprimir assim, e nada tem a ver com a virtude. Foi a contragosto que excluí do Senado, sete anos após seu consulado, Lúcio Flaminino, irmão do muito enérgico Tito 1'laminino. Mas julguei ser meu dever sancionar a devassidão. Quando era cônsul na Gália, ele se deixara convencer por uma prostituta, por ocasião de um festim, a decapitar a machado um dos prisioneiros condenados por crime. Enquanto seu irmão fora censor, justamente antes que eu próprio o fosse, ele havia escapado ao castigo. Mas nem Flaco nem eu pudemos tolerar tão escandalosas depravações que somavam ao opróbrio privado a desonra do poder.

Com frequência ouvi pessoas mais velhas - que diziam tê-lo sabido da boca dos velhos quando elas próprias eram crianças - evocarem o testemunho de Gaio Fabrício. Este repetia, sempre com espanto, o que lhe teria dito o tessálio Cíneas, por ocasião de uma embaixada junto ao rei Pirro: havia em Atenas um indivíduo) que, embora gabando-se de ser um sábio, afirmava que a busca do prazer devia determinar todos os nossos atos. Mário Curió e Tibério Coruncânio desejavam vivamente, por sua parte, que os samnitas - e o próprio Pirro - fossem seduzidos pelas teorias desse homem, pois assim, chafurdados na devassidão, eles seriam bem mais fáceis de vencer. Mário Curió fora amigo daquele Públio Décio que, cinco anos antes dele, e cônsul pela quarta vez, havia escolhido a morte para salvar o Estado. Fabrício e Coruncânio também o haviam conhecido, e todos, como o atestam a vida e o heroísmo de Décio, acreditavam firmemente num ideal bastante nobre, naturalmente belo e sublime, para convencer todo homem a devotar-lhe a vida sem considerar o prazer.

Diante da morte
Resta a quarta razão de temer a velhice, a que desola e acabrunha particularmente as pessoas de minha idade: a aproximação da morte. Ela é incontestável. Mas como é lastimável o velho que, após ter vivido tanto tempo, não aprendeu a olhar a morte de cima! Cumpre ou desprezá-la completamente, se pensamos que ela ocasiona o desaparecimento da alma, ou desejá-la, se ela confere a essa alma sua imortalidade. Não há outra alternativa.
Por que eu temeria a morte se, depois dela, não sou mais infeliz, quem sabe até mais feliz? Aliás, quem pode estar seguro, mesmo jovem, de estar ainda vivo até o anoitecer? Mais ainda: os jovens correm mais o risco de morrer que nós. Adoecem mais facilmente, e mais gravemente; são mais difíceis de tratar. Assim, não são muitos a chegar à velhice. Se fosse de outro modo, o mundo viveria melhor e mais razoavelmente, já que a inteligência, o julgamento e a sabedoria são próprios dos velhos, sem os quais jamais teria havido cidades.
Mas retorno à morte que nos espreita. Por que fazer disso motivo de queixa à velhice, se é um risco que a juventude compartilha? De minha parte, foi após o desaparecimento de meu excelente filho que me dei conta de que a morte sobrevêm a qualquer idade; e tu, Cipião, foi após a de teus irmãos, prometidos no entanto a um brilhante futuro.
Alimentaria o jovem, apesar de tudo, a esperança de viver ainda muito tempo, enquanto isso é interdito ao velho? Mas vejam, é uma esperança insensata: que pode haver de mais insano que ter por certo que não o é e por verdadeiro o que é falso?
E o velho, por sua vez, nada mais teria a esperar?
Então sua posição é melhor que a do adolescente. Aquilo com que este sonha, ele já o obteve. O adolescente quer viver muito tempo, o velho já viveu muito tempo! E, grandes deuses!, que quer dizer "muito tempo" para a natureza humana? Tomemos a duração máxima calculada sobre uma vida tão longa quanto a do rei dos tartéssios [antigos habitantes da Andaluzia]. (Li que em Gades [Cádis], um certo Argantônio reinou oitenta e viveu cento e vinte anos.) Mesmo nesse caso, não me decido a considerar "longo" o que de todo modo tem um fim. Quando esse fim chega, o passado desapareceu. Dele vos resta apenas o que vos puderam trazer a prática das virtudes e as ações bem conduzidas. Quanto às horas, elas se evadem, assim como os dias, os meses, os anos. O tempo perdido jamais retorna e ninguém conhece o futuro. Contentemo-nos com o tempo que nos é dado a viver, seja qual for!
Para ser aplaudido, o ator não tem necessidade de desempenhar a peça inteira. Basta que seja bom nas cenas em que aparece. Do mesmo modo, o sábio não é obrigado a ir até o aplauso final.

Uma existência, mesmo curta, é sempre suficientemente longa para que se possa viver na sabedoria e na honra. E se acaso ela se prolonga, não iremos nos queixar, como tampouco fazem os camponeses, de que após a clemência da primavera venham o verão e o outono. A primavera, em suma, representa a dolescência e a promessa de seus frutos; as outras estações são as da colheita, da seara.
Os frutos da velhice, tenho dito e repetido, são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu. Ora, tudo o que é conforme à natureza deve se considerar como bom. Que há de mais natural para um velho que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza resiste e se rebela. Assim como a morte de um adolescente me faz pensar numa chama viva apagada sob um jato d'água, a de um velho se assemelha a um fogo que suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser ,arrançados à força da árvore que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente. Do mesmo modo, a vida é arrancada à força aos adolescentes, enquanto deixa aos poucos os velhos, quando chega sua hora. Consinto de tão boa vontade tudo isso que, quanto mais me aproximo da morte, parece que vou me aproximando da terra como quem chega ao porto após uma longa travessia.
Aliás, não há um termo preestabelecido à velhice. Vive-se muito bem enquanto se é capaz de assumir os encargos de sua função e de desprezar a morte. A tal ponto que, nesse domínio, os velhos podem se revelar mais corajosos e mais enérgicos que os jovens. Eis o que respondeu, ao que consta, Sólon ao tirano Pisístrato que lhe perguntava o que lhe dava a força de resistir tão valentemente: "A velhice!". A maneira mais bela de morrer é, com a inteligência intacta e os sentidos despertos, deixar a natureza desfazer lentamente o que ela fez. Aquele que construiu um barco ou erigiu um prédio é o mais indicado para destruí-lo; assim também, é pela natureza que o cimentou que o homem é melhor desagregado. Ora, o cimento dificilmente se desagrega quando é fresco, mas facilmente se é velho. Conclusão: os velhos não devem nem se apegar desesperadamente nem renunciar sem razão ao pouco de vida que lhes resta.
Pitágoras proíbe que abandonemos nosso posto - ou seja, a vida - sem a ordem formal do comandante-em-chefe que no-lo designou - ou seja, Deus. Em seu epitáfio, o sábio Sólon declara, por sua vez, que não deseja morrer sem ser saudado pela dor e pelas lágrimas de seus amigos. Em suma, ele deseja, parece-me, ser amado pelos seus. Mas prefiro muito mais o que disse Ênio:

Que ninguém me homenageie com suas lágrimas, que ninguém chore sobre meu túmulo!

A seu ver, não devíamos nos afligir com a morte, já que ela dava acesso à eternidade. Pode acontecer que se sinta uma certa apreensão no momento de morrer, mas isso dura pouco. Após a morte, ou não há nada, ou essa apreensão se transforma em beatitude. E é desde a adolescência que convém se preparar para o desprezo da morte. Sem essa preparação, nenhuma serenidade é possível. Cada um de nós deve morrer, com efeito; hoje mesmo, talvez. Mas com a obsessão da morte que pode .sobrevir a qualquer momento, como conservar o espírito calmo?

Não creio que seja necessário estender-se sobre esse ponto quando evoco precedentes: não falemos de Lúcio Bruto , que morreu libertando sua pátria, nem dos dois Décio, que lançaram seus cavalos a galope de encontro a uma morte voluntária, nem de Marco Atílio, que marchou ao suplício para respeitar sua palavra dada ao inimigo, nem dos dois Cipião que quiseram, com seus corpos, barrar o caminho aos cartagineses, nem de teu avô, Lúcio Paulo, que pagou com a vida a imprudência de seu colega por ocasião do desonroso desastre de Cannes, nem de Marco Marcelo, que o inimigo mais cruel não ousou privar das honras fúnebres. Falemos de nossas legiões que, como relatei em “As Origens”, partiram ao combate alegres e orgulhosas mas sem esperança de retorno. O que jovens ignorantes e até mesmo camponeses desprezam poderia fazer tremer velhos instruídos?
Em geral, parece-me, perdemos o apetite de viver quando nossas paixões são saciadas. Devem os adolescentes lamentar a perda do que adoravam quando crianças? E poderiam os homens maduros ter saudade do que amavam quando adolescentes? Também eles têm seus gostos, que não são os dos velhos. A velhice, enfim, tem suas inclinações próprias. E estas por sua vez se desvanecem como desapareceram as das idades precedentes. Quando esse momento chega, a saciedade que sentimos nos prepara naturalmente para a proximidade da morte.
Por que eu hesitaria em vos dizer tudo o que penso da morte? Estou tanto melhor situado para compreendê-la à medida que me aproximo dela. Tenho certeza de que vossos pais, o teu, Cipião, e o teu, Lélio, esses homens admiráveis que foram meus .amigos, vivem ainda e daquela verdadeira vida que é a única a merecer esse nome. Encerrados que estamos na prisão de nosso corpo, cumprimos de certo modo uma missão necessária, uma tarefa ingrata: pois a alma, de origem celeste, foi precipitada das alturas onde habitava e se encontra como que enterrada na matéria. É um lugar contrário à sua natureza divina e eterna. Creio que os deuses imortais distribuíram as almas em corpos de homens para ajudar estes a imitarem a ordem celeste, escolhendo a firmeza moral e o espírito de moderação.
Foi refletindo por mim mesmo, mas também graças á autoridade e à notoriedade dos maiores filósofos, que cheguei a essa convicção. Assim descobri que Pitágoras e os pitagóricos - quase compatriotas, outrora chamados filósofos italiotas (da Itália meridional) -jamais duvidaram que nossas almas fossem a emanação do espírito divino que anima o universo. Também me foram expostas as teses sobre a imortalidade da alma desenvolvidas por Sócrates no dia mesmo de sua morte, ele que o oráculo de Delfos (Apolo) proclamara o mais sábio de todos os homens. O que mais? Quereis saber minha convicção, meu sentimento? A substância que engloba uma viva inteligência, uma vasta memória do passado, uma sólida presciência do futuro, tantos talentos, saber e descobertas, não poderia ser mortal. A alma está sempre em movimento: este não tem começo - a alma é seu próprio motor - e não terá fim, pois a alma não abandonará a si mesma. Além disso, como a alma é homogênea por natureza e não contém elemento estranho díspar, ela não pode ser fracionada. Ora, sem fracionamento não há morte possível.
E ademais temos a prova de que os homens sabem o essencial do que devem saber antes mesmo de nascerem. Confrontadas a estudos difíceis, as crianças rapidamente adquirem tantos conhecimentos que parecem não aprendê-los pela primeira vez, mas lembrar-se deles. É mais ou menos o que disse Platão.
Em Xenofonte, Ciro, o Grande, pronuncia estas palavras ao morrer:


“Meus caríssimos filhos, não creiais, quando eu vos tiver deixado, que não serei mais nada e que desaparecerei. Enquanto eu vivia entre vós, não discerníeis minha alma mas compreendíeis, por meus atos e gestos, que ela estava em meu corpo. Estai certos de sua existência, mesmo se nada mais a torna visível.
Os grandes homens, após sua morte, não seriam tão duradouramente venerados se não emanasse de sua alma algo que conserva sua lembrança. Jamais pude acreditar que a alma, viva enquanto habitava o corpo, morresse ao deixá-lo; nem que, ao se evadir do corpo de um insensato, ela permanecesse insensata. Creio ao contrário que, desvencilhada de seu invólucro carnal, voltando a ser pura e homogênea, a alma volta a ser sábia. Aliás, quando o corpo se desagrega, após a morte, percebe-se bem de onde vinham e para onde retornam os elementos que o constituíam. Somente a alma, esteja presente ou não, jamais se mostra.
Vós constatais, além disso, que nada se assemelha tanto à morte quanto o sono. E a alma do adormecido manifesta claramente sua natureza divina: em repouso, relaxada, esta prevê com frequência o futuro. Isso nos dá uma idéia do que ela será no dia em que estiver totalmente livre de sua prisão corporal. Se o que creio é verdadeiro, ele acrescentou, então honrai-me como a um deus. Se a alma, ao contrário, morre com o corpo, é venerando os deuses, organizadores e guardiães do universo, que cultivareis como bons filhos minha lembrança.”

Tais foram as palavras pronunciadas por Ciro no momento de sua morte. Mas vejamos, se o preferirdes, o que se passa entre nós.
Jamais me farão acreditar, Cipião, que teu pai Lúcio Emílio Paulo, o Macedônio, teus dois avós, Paulo Emílio e Cipião, o Africano, seu pai e seu tio, e tantos outros heróis que é inútil citar, tenham se dado tanto trabalho para passar à posteridade se nela não acreditassem. Acaso crês que teria passado meus dias e minhas noites atarefado, em tempo de guerra como em tempo de paz, se julgasse que minha glória se deteria com minha vida? Não teria sido melhor, nesse caso, deixar-me docemente viver, sem esforço nem trabalho? Ignoro a razão, mas minha alma desperta sempre pressagiou o futuro, como se tivesse adivinhado que, uma vez deixada a vida, ela finalmente viveria. Não, se fosse verdade que as almas não são imortais, os grandes homens não desdobrariam tantos esforços para alcançar a glória e a imortalidade.
E se o sábio morre com tanta serenidade enquanto um imbecil morre com tão grande pavor, não será porque a alma do primeiro, lúcida e clarividente, percebe que voa assim em direção ao melhor, enquanto a do segundo, obtusa, é incapaz disso? No que me concerne, grande é minha impaciência de reencontrar vossos pais que estimei e respeitei; de rever todos aqueles que pessoalmente conheci, de conhecer aqueles de quem me falaram, de quem li as façanhas e sobre os quais eu mesmo escrevi. Teriam muita dificuldade, no momento da grande partida, de me reter para me fazer ferver num caldeirão como Pélias.***
E, mesmo se um deus me oferecesse generosamente voltar a ser um bebê dando vagidos em seu berço, eu recusaria ser levado de volta ao ponto de partida após ter percorrido, por assim dizer, toda a arena.
Que há portanto de positivo na vida? Não oferece ela sobretudo provações? Seguramente, ela comporta muitas vantagens, mas, seja como for, no final restam apenas a saciedade e o término. Não tenho vontade de queixar-me sobre a morte como o fizeram com freqüência alguns, inclusive entre os sábios; tampouco vou lamentar ter vivido, posto que, minha vida o testemunha, não fui inútil. Aliás, deixo a vida não como quem sai de sua casa mas como quem sai de um albergue onde foi recebido. A natureza, com efeito, nos oferece uma pousada provisória e não um domicílio. Oh, como será bela a jornada quando eu partir para juntar-me, no além, à assembléia divina formada pelas almas, quando eu deixar o tumulto e o lamacento caos deste mundo! Então reencontrarei não apenas todos os homens de quem falei aqui, mas sobretudo meu querido Catão, o melhor de todos, o filho mais amável e o mais respeitoso. Fui eu que queimei seu corpo quando ele é que deveria ter queimado o meu. Mas sua alma não me abandonou; ela vela sobre mim desde aquele lugar aonde ela sabe que devo ir. Viram-me aceitar corajosamente meu luto; não era resignação de minha parte. Eu apenas reconfortava-me à idéia de que a separação e o afastamento seriam de curta duração.


***As filhas de Pélias, sob instigação de Medéia, despedaçaram seu pai e fizeram ferver seus pedaços num caldeirão, acreditando rejuvenescê-lo.


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